O fim dos controles fronteiriços entre a Espanha e o território britânico de Gibraltar entrou em vigor à meia-noite desta quarta-feira (15), e os postos de controle que, por décadas, causaram filas e atritos diplomáticos foram desativados. Dezenas de pessoas e veículos atravessaram a fronteira sem qualquer inspeção, e moradores se reuniram no local, agitando bandeiras espanholas. A medida marca a entrada em vigor do tratado que garante a livre circulação entre Gibraltar e a União Europeia, negociado após a saída do Reino Unido do bloco, em 2020. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou que a medida fecha “uma ferida aberta” há décadas. Ele participou da cerimônia ao lado do ministro-chefe de Gibraltar, Fabian Picardo, na zona fronteiriça onde equipes vinham retirando nas últimas semanas a antiga cerca metálica que separava os dois territórios. “A Europa voltou”, afirmou Picardo. A mudança encerra um capítulo que remonta a 1713, quando a Espanha cedeu Gibraltar à Coroa britânica pelo Tratado de Utrecht. Desde então, Madri nunca abandonou a reivindicação de soberania sobre o pequeno território na ponta sul da Península Ibérica, o que alimentou tensões recorrentes ao longo de mais de 300 anos. A cerca que separa Gibraltar da cidade espanhola de La Línea de la Concepción foi erguida pelos britânicos em 1909. Um dos episódios de maior tensão ocorreu em 1969, quando o ditador Francisco Franco (1939-1975) fechou completamente a fronteira depois que os moradores de Gibraltar, em referendo, optaram por ampla maioria pela continuidade sob domínio britânico. O fechamento durou 13 anos, interrompeu o fluxo diário de trabalhadores e separou famílias dos dois lados da linha. Mais recentemente, o Brexit reabriu a incerteza sobre o futuro da fronteira. Quando o Reino Unido deixou a União Europeia, em 2020, a relação entre o bloco e Gibraltar —que sedia também uma base militar britânica estratégica, na entrada do Mediterrâneo— ficou sem solução definitiva. A assinatura de um tratado definitivo sobre livre circulação se arrastou por mais de cinco anos até a cerimônia realizada na terça-feira (14) em Bruxelas. O acordo alinha Gibraltar às regras do espaço europeu de livre circulação Schengen. Viajantes vindos de fora dessa zona continuarão obrigados a apresentar passaporte aos funcionários no aeroporto e no porto do território. O ato na terça-feira contou com a presença do comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, e dos ministros britânicos e espanhóis, além do próprio chefe de governo gibraltarino, Fabian Picardo. Ele descreveu o acordo como o fim “das barreiras físicas de uma época passada de atritos”, ressalvando que o território mantém “as chaves” de sua “porta principal”. Já o chanceler espanhol, José Manuel Albares, disse à rádio Cadena SER que o pacto “abre uma nova era” e “enormes possibilidades”. Gibraltar tem apenas cerca de 40 mil habitantes, mas sua economia baseada em serviços financeiros e sede de empresas de jogos online depende de aproximadamente 15 mil trabalhadores que cruzam diariamente a fronteira vindos da Espanha. O território tem uma das rendas per capita mais altas do mundo e por muito tempo funcionou como tábua de salvação para moradores da comarca vizinha do Campo de Gibraltar, historicamente uma das regiões com maior desemprego da Espanha. Nos horários de pico, a verificação de documentos na fronteira terrestre costumava formar longas filas, um problema que se agravava especialmente em períodos de maior tensão entre Londres e Madri. “O desaparecimento dessa espada de Dâmocles é importante”, avaliou Manuel Triano Paulete, secretário-geral do sindicato Comisiones Obreras na comarca do Campo de Gibraltar. O presidente da Federação de Pequenas Empresas de Gibraltar, Owen Smith, afirmou à AFP que uma fronteira mais fluida facilitará às empresas de Gibraltar contratar e reter trabalhadores que vivem na Espanha, já que os “incômodos” de cruzar a fronteira podem ser “consideráveis”.
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