Estátua da Liberdade? Selfies com o Homem-Aranha em Times Square? Desde a abertura da Assembleia Geral da ONU, um grupo seleto de visitantes elegeu uma nova parada obrigatória no turismo desta metrópole: onde quer que esteja o prefeito Zohran Mamdani, com o uniforme de terno e gravata pretos e o sorriso ensolarado que derrete até seu Coringa, o cavaleiro que previu na eleição do ugandense-americano um apocalipse. O ex-jogador de basquete e primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez gravou vídeo disputando cestas de papel amassado na Mansão Gracie, a residência oficial da prefeitura. Lula recebeu o burgomestre na histórica mansão georgiana arrematada por US$ 4,05 milhões (US$ 15 milhões hoje) num leilão, em 1981, pelo Itamaraty do chanceler Saraiva Guerreiro —uma façanha, menos pela gastança do que pelo convencimento do general presidente que proclamava, orgulhoso, preferir o odor de uma estrebaria ao de um salão de festas. Até a montanha fez questão de visitar Maomé. O cortejo presidencial blindado paralisou parte de Manhattan para um rápido festival de amor no jardim da residência oficial, quando Donald Trump, depois de elogiar Mamdani, discutiu com ele seu assunto favorito: construir prédios. Mas a fama internacional de Mamdani não surgiu de um vácuo, ancorada em charme e na sua inegável inteligência política. As grandes cidades e seus governantes se tornaram focos de resistência à onda autoritária que ameaça democracias em toda parte. Ao contrário da maioria dos republicanos seguindo uma cartilha de assuntos considerados tabus para não contrariar o presidente, Mamdani pediu proteção à população haitiana de Nova York. Esmagado pela invasão de mais de 3.000 agentes do ICE numa cidade com uma força policial de 643 em uniforme, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, recusou qualquer cooperação com as forças que ocuparam a cidade e ainda enfrenta o governo federal na Justiça. O avanço do nacionalismo de extrema direita na Alemanha teve como contraponto a vitória do partido esquerdista Die Linke na eleição estadual de Berlim e pode levar Elif Eralp à prefeitura. Filha de imigrantes turcos, ela já foi apelidada de “Mamdani alemã”. É difícil imaginar que os húngaros teriam lavado a alma com a eleição de Péter Magyar não fosse o Pacto das Cidades Livres que, em 2019, reunia apenas as capitais de Hungria, Polônia, Eslováquia e República Tcheca, e hoje engordou para 45 membros, incluindo várias cidades dos EUA. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Constante objeto de piadas da esnobe elite londrina, o novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, chegou ao cargo num possível reconhecimento de que a saída seria o “jeca” competente que administrou Manchester por 10 anos. O poder de um prefeito é limitado, mas o impacto da competência elementar —Mamdani bateu recorde de buracos de rua tapados em nove meses de governo— é assustador para o tiranete nacionalista. O turco Recep Tayyip Erdogan mantém Ekrem Imamoglu, ex-prefeito de Istambul, na cadeia sob acusações fabricadas, apavorado com as centenas de milhares que lotaram a cidade em protestos. Estender serviços de esgoto não requer cartilha socialista ou fascista. Pergunte ao nova-iorquino que mal se mantém acordado de pé no metrô às 6h se ele está pensando em barrar atletas trans nos esportes. Ou melhor, não pergunte, se não quiser ouvir um palavrão. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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