Ao caminhar por um condomínio em construção em uma manhã de sábado, o som de música em espanhol vindo de uma casa chamou minha atenção. Dentro da obra, um grupo de trabalhadores imigrantes erguia, com precisão e força, a estrutura que futuramente abrigará uma família americana de classe média. Nos dias seguintes, ao observar outras construções da região um padrão ficou evidente. Aos sábados, raramente se viam trabalhadores nativos nas obras. E mesmo durante a semana, após as 16h, eram quase sempre os imigrantes que permaneciam no trabalho pesado ao ar livre, enquanto os norte-americanos se concentravam principalmente em funções operadas por máquinas, protegidos pelo ar-condicionado. Sob frio extremo no inverno ou calor severo no verão, eram os imigrantes que continuavam presentes, executando tarefas braçais e desgastantes. Não encontrei nesses rostos sinais de abatimento, mas expressões de dignidade — homens e mulheres que trabalham para construir um futuro, seja neste país que ajudam diariamente a erguer, seja enviando parte de sua renda para sustentar suas famílias em suas terras de origem. Relatos semelhantes apareceram em conversas com imigrantes que trabalham na limpeza doméstica. Muitas dessas mulheres são a única companhia semanal de idosos solitários, tornando-se, além de trabalhadoras, presença humana essencial em muitas casas. Há muito mais na experiência imigrante nos Estados Unidos do que o fator econômico. O clima de hostilidade e medo direcionado a esses trabalhadores reflete, em grande parte, a ignorância de quem não conhece — ou não quer conhecer — o outro lado da narrativa: o lado do imigrante. Os lares americanos erguidos diariamente carregam suas mãos. Assim como as roupas que vestem, a comida que consomem, as ruas por onde circulam e a culinária que se espalha pelo país. A contribuição imigrante está entranhada na vida cotidiana dos Estados Unidos, ainda que muitas vezes invisibilizada. Não seria honesto afirmar que não haja casos de criminalidade entre imigrantes, mas os próprios dados oficiais mostram que a taxa de crimes é proporcionalmente maior entre nativos. Os números de encarceramento do governo americano confirmam essa discrepância. Responsabilizar imigrantes por crises sociais e econômicas é repetir erros históricos cometidos contra outros povos. É ignorar que grande parte do que sustenta, movimenta e dá forma à sociedade americana passa silenciosamente pelo esforço daqueles que, mesmo enfrentando preconceito e insegurança, continuam trabalhando para fazer a América grande.
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