A decisão do governo dos EUA de libertar o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por narcotráfico, não encontra justificativa lógica dentro da chamada guerra contra as drogas. Hernández foi sentenciado em Nova York por facilitar a passagem de centenas de toneladas de cocaína pelo território hondurenho rumo aos EUA. Segundo os procuradores, ele transformou o Estado em ferramenta de cartel, usando policiais, militares e instituições do país para proteger embarques e perseguir rivais. Poucos líderes da região tiveram um papel tão estratégico na rota centro-americana quanto ele. Ainda assim, recebeu indulto presidencial. O perdão ocorre no momento exato em que Honduras vive uma eleição altamente disputada. A apuração, até a conclusão deste texto, ainda não havia terminado, mas Nasry Asfura havia retomado a liderança apertada contra Salvador Nasralla. O indulto, portanto, não é um gesto isolado. Ele se insere num contexto de interferência direta de Washington no pleito. Donald Trump já havia declarado apoio público a Asfura e ameaçado cortar ajuda caso o país não mantivesse “cooperação plena” com os EUA. A libertação de Hernández fortalece a leitura de que setores do antigo establishment hondurenho, desmontados após sua prisão, podem estar tentando recuperar espaço em torno de Asfura. O crime que o levou à condenação torna ainda mais difícil compreender a decisão americana. Hernández não era um político que convivia com o narcotráfico. Ele era parte central do negócio. Depoimentos de traficantes apresentados no julgamento detalharam pagamentos sistemáticos, proteção armada estatal e acordos para garantir o trânsito seguro da cocaína pela região. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Para procuradores de Nova York, Hernández operou durante anos como um dos principais articuladores do corredor entre Colômbia, Honduras, Guatemala e México. Sua influência atravessava fronteiras e consolidou uma estrutura que continua ativa. Tirar da prisão alguém com esse peso equivale a romper publicamente a narrativa de tolerância zero que Washington diz defender contra o narcotráfico. A explicação oficial, de que ele teria sido vítima de perseguição política, não se sustenta diante da robustez das provas apresentadas no tribunal. Por isso, multiplicam-se hipóteses sobre o que está por trás do indulto. Uma possibilidade é que se trate de apoio indireto a Asfura, visto por setores conservadores da região como figura capaz de restaurar o modelo de alianças que vigorou durante o governo Hernandez. Outra hipótese é que o ex-presidente tenha oferecido informações ou contrapartidas que ainda não vieram a público, movimentando redes financeiras que permanecem ativas na América Central. Também circulam avaliações de que Washington busca recompor influência em países onde sua presença diminuiu nos últimos anos. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Qualquer que seja a motivação, o gesto mina a credibilidade da política antidrogas dos EUA. Enquanto o governo americano bombardeia embarcações suspeitas no Caribe e justifica ações unilaterais em nome do combate ao tráfico, solta um dos responsáveis por abastecer seu próprio mercado consumidor. A libertação do ex-presidente, no meio de uma apuração eleitoral até a publicação deste texto indefinida, reposiciona velhos atores e lança dúvidas sobre o que realmente orienta a política dos EUA na América Central. Se o objetivo é combater o narcotráfico, o indulto é indefensável. Se o objetivo é recompor alianças políticas, então tudo muda de figura. O problema é que, para os hondurenhos, o custo dessa ambiguidade continua altíssimo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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