Um funcionário iraniano de alto escalão da área de segurança nacional apresentou neste sábado (8) uma lista de exigências que, segundo ele, os Estados Unidos terão de cumprir antes que o estreito de Hormuz possa ser reaberto ao tráfego marítimo. A iniciativa lança dúvidas sobre o destino dessa rota comercial. Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, divulgou um comunicado veiculado pela mídia estatal no qual enumera várias condições para a reabertura do estreito. Ele exigiu que os EUA suspendam o bloqueio naval e as sanções contra o Irã, retirem as forças militares americanas das proximidades do país, paguem reparações devido à guerra e liberem ativos iranianos congelados, além de encerrarem os ataques aos aliados do Irã na região e as ameaças contra o país. É improvável que o governo Trump aceite essas exigências. Um cessar-fogo anterior entre Irã e EUA, acertado em junho, previa que as sanções só seriam suspensas caso houvesse um acordo definitivo sobre o programa nuclear iraniano. Autoridades americanas afirmaram que Teerã só poderia ter acesso aos recursos congelados se primeiro se comprometesse a abrir mão de seu urânio altamente enriquecido. O comunicado de Zolghadr foi divulgado enquanto Irã e Omã negociam um acordo sobre a futura gestão do estreito de Hormuz, situado entre os dois países. Teerã bloqueou o estreito em retaliação aos ataques sofridos dos EUA e de Israel nos últimos meses. A lista de exigências de Zolghadr frustrou as expectativas de que um acordo com Omã permitiria a retomada do comércio pelo estreito e aliviaria os preços globais da energia. É provável que isso pressione o presidente Donald Trump a considerar as condições iranianas caso queira reduzir os preços para os consumidores americanos. Mesmo antes do comunicado de Zolghadr, autoridades iranianas já haviam dado a entender neste sábado que a reabertura do estreito não era iminente. Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã, afirmou que a reabertura “não está condicionada às negociações entre Irã e Omã”. Em declarações veiculadas pela Tasnim, agência de notícias iraniana ligada à Guarda, Mohebbi disse que isso dependeria “da plena aceitação das condições do Irã pelos EUA”. Ele não especificou quais seriam essas condições, limitando-se a afirmar que Washington não deve interferir nas negociações em andamento do Irã com Omã ou com outros países. Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores iraniano, afirmou neste sábado que Irã e Omã estavam “muito próximos” de um acordo, segundo a Tasnim. “No entanto, a reabertura do estreito de Hormuz está condicionada a outros requisitos, entre eles a indenização, por parte dos EUA, pelas violações do Memorando de Islamabad”, afirmou Araghchi, segundo a agência, referindo-se ao acordo de cessar-fogo assinado por Irã e EUA em junho. O acordo de junho —um “memorando de entendimento” mediado por negociadores paquistaneses em Islamabad— previa a abertura do estreito de Hormuz e a suspensão temporária das sanções sobre o petróleo iraniano. A linguagem do acordo, porém, era vaga, e EUA e Irã divergiam quanto à sua interpretação. Os EUA apoiaram uma rota ao sul para os navios, próxima à costa de Omã e fora das águas iranianas, e o Irã reagiu advertindo e atacando embarcações que utilizaram esse trajeto. O cessar-fogo logo entrou em colapso, e os EUA restabeleceram o bloqueio naval aos portos iranianos. “Os americanos buscavam estabelecer novas rotas pelo estreito de Hormuz e, apesar das advertências emitidas por nosso país, tentaram enfraquecer a gestão iraniana do estreito”, disse Araghchi. “Portanto, qualquer violação do memorando de entendimento ou da gestão do estreito de Hormuz pelo Irã é absolutamente inaceitável para a República Islâmica do Irã.” Araghchi afirmou que Irã e Omã discutiam uma rota temporária pelo estreito e que as forças militares dos dois países negociavam os detalhes. Autoridades a par do acordo em elaboração disseram que ele poderia formalizar algumas das reivindicações do Irã de controle sobre a navegação na via marítima. Raz Zimmt, especialista em Irã do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, de pesquisa israelense, afirmou que as declarações de Mohebbi e Araghchi refletiam a visão iraniana de que as negociações com Omã se destinavam, “no máximo”, a definir como a via marítima será reaberta no futuro. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Mesmo que Irã e Omã cheguem a um acordo sobre os detalhes relativos ao estreito, “está claro que Teerã não concordará em implementá-los sem que os EUA voltem a cumprir os compromissos assumidos no memorando, incluindo a suspensão do bloqueio naval e a retomada do processo de alívio das sanções”, escreveu Zimmt nas redes sociais. Neste sábado, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes afirmou que um ataque iraniano atingiu um navio-tanque pertencente à estatal Abu Dhabi National Oil enquanto atravessava o estreito de Hormuz. A empresa informou na sexta (7) que pelo menos 15 de suas embarcações haviam sido atacadas na via marítima desde o início do conflito, resultando na morte de um tripulante e em ferimentos em outros 20. Pouco mais de uma dúzia de navios por dia atravessou o estreito na última semana, segundo a Kpler, empresa de dados marítimos. Antes da guerra, uma média de 130 embarcações utilizava a rota diariamente. Para evitar a detecção pelas forças iranianas ou americanas que impõem bloqueios no estreito, alguns navios desligaram os transponders que transmitem sua localização, dificultando a obtenção de uma contagem precisa das travessias.
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