O ataque do Hamas a Israel completa dois anos na próxima terça-feira (7). Naquele 7 de outubro de 2023, o grupo terrorista matou cerca de 1.200 pessoas —em maioria civis— e desencadeou o mais tenso e bélico período do conflito entre a Palestina e o Estado judeu. Desde então, o Exército israelense respondeu com ao menos 20 mil ataques no território da Faixa de Gaza —mais de dez vezes a quantidade de incursões do Hamas. Na última segunda-feira (29), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, anunciaram um acordo que tenta pôr fim à guerra em Gaza. Na sexta-feira (3), o Hamas anunciou concordar com partes do plano, inclusive a libertação de todos os reféns, e disse estar pronto para negociar sua implementação. Mesmo com os indicativos de ambos os lados, os ataques seguem no território palestino. Ao considerar os últimos dois anos, ao menos 90% das ações israelenses dizem respeito a explosões e formas de violência remota —no geral, perpetrados por meio de bombardeios e artilharia aérea. Destas, mais da metade —ou 9.909 ataques— teve civis entre as vítimas. Para além dos ataques remotos, ainda houve pelo menos 581 casos de violência direta a civis por diferentes meios. Estes são os principais meios pelos quais mais de 67 mil palestinos foram mortos desde o início da guerra, segundo os dados mais atuais do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. A contagem de ataques é feita pelo Acled (Banco de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Armados), que monitora todos os eventos violentos na região desde o 7 de Outubro. A iniciativa coleta, analisa e mapeia dados sobre conflitos e protestos por todo o mundo. No caso de Gaza, o Acled processa centenas de fontes midiáticas regionais para contabilizar os eventos e, com o objetivo de preencher lacunas causadas pelo bloqueio à entrada da imprensa internacional no território palestino, triangula e confronta as informações de diversas fontes. Em paralelo aos ataques remotos, confrontos armados diretos entre o Exército israelense e os membros do Hamas são o segundo tipo de evento mais comum. Foram 1.504 ocorrências registradas nos últimos dois anos. Durante o primeiro ano de guerra, até outubro de 2024, grupos palestinos —via de regra, terroristas do Hamas, com pontuais exceções a outras facções semelhantes— perpetraram 1.287 ataques, excluindo, portanto, os confrontos diretos. Destes, 820 foram ações contra o Exército israelense na área de Gaza, e outras 439, incursões contra o território de Israel. No mesmo período, as forças de Tel Aviv orquestraram ao menos 11.361 ataques, sendo 94% de maneira remota. O segundo ano de guerra, por sua vez, indicou um descompasso nessa proporção. Enquanto o Hamas e demais grupos agiram 651 vezes, o Exército de Israel realizou 8.949 ataques. Na prática, significa dizer que, desconsiderados os eventos em que ambos os atores se enfrentaram diretamente, Tel Aviv reduziu em 21,2% suas operações, à medida que observou o grupo terrorista reduzir em 49,4% seus ataques. A mesma tendência de queda atingiu as batalhas armadas entre Hamas e Israel. Nos últimos 12 meses, foram 246 confrontos, ante 1.264 no período anterior —uma queda de 80,5%. Analistas internacionais apontam para o desmonte da capacidade militar do Hamas como principal fator. Segundo um relatório do Acled, enquanto o braço armado da facção “está degradado e as estruturas de governo estão abaladas, o grupo se adaptou mudando para táticas de guerrilha no campo de batalha e estabelecendo mecanismos informais de governança e aplicação da lei para sobreviver e manter a influência doméstica”. O monitor ainda aponta para o fato de que o Exército de Israel, desde a quebra unilateral do cessar-fogo, em março deste ano, “rapidamente expandiu sua presença em Gaza, assumindo o controle de mais de 75% do território e realizando níveis recordes de operações de destruição e limpeza” antes da ofensiva terrestre iniciada em 16 de setembro. Mesmo com o plano de Trump em vias de negociação, Netanyahu afirmou que não abrirá mão de desarmar o Hamas “seja por via diplomática, seja por via militar”, em uma fala que ecoa suas repetidas declarações de ter como objetivo desmantelar o grupo. Sem oferecer mais detalhes, ao concordar com a libertação de reféns, o Hamas declarou também aceitar abrir mão de governar a Faixa de Gaza sob os termos do texto de Trump. Segundo o relatório do Acled —publicado antes do anúncio do plano—, “com poucas perspectivas de eliminar completamente o Hamas, o governo [de Netanyahu] segue uma estratégia de controle” baseada em “degradar o Hamas e, ao mesmo tempo, bloquear arranjos alternativos de governo palestino, empurrar Gaza para condições inabitáveis para incentivar a emigração voluntária e, em última análise, obstruir qualquer caminho para a soberania palestina”.
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