Uma juíza federal dos Estados Unidos proibiu temporariamente o presidente Donald Trump de enviar 200 soldados da Guarda Nacional para Portland em resposta a protestos na cidade de 600 mil habitantes contra a política anti-imigração do governo. Trump e o Departamento de Defesa haviam ordenado o envio de militares da Guarda Nacional do Oregon para a cidade, a mais populosa do estado do oeste dos EUA, em um período de 60 dias. A juíza Karin Immergut classificou a decisão de infundada e determinou a suspensão da mobilização dos agentes federais até pelo menos 18 de outubro. O mérito da ação ainda será julgado. Horas mais tarde, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que despontou como o principal opositor de Trump a nível nacional, disse que o governo mobilizou 300 membros da Guarda Nacional de seu estado, vizinho do Oregon, e os enviou para Portland. Depois, um comunicado do Pentágono confirmou o deslocamento de 200 soldados, decisão que viola a ordem da magistrada. “Sob orientação do presidente, aproximadamente 200 membros federalizados da Guarda Nacional da Califórnia estão sendo redirecionados do serviço na grande área de Los Angeles para Portland, Oregon, para apoiar o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA e outros funcionários federais no desempenho de suas funções oficiais, incluindo a aplicação da lei federal, e para proteger propriedades federais”, disse o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell. Trump tem buscado enviar tropas como estratégia para combater uma suposta criminalidade em algumas localidades do país. Como mostrou a Folha, até que Portland virasse alvo, todas as cidades escolhidas pelo republicano para intervenção tinham em comum o fato de serem governadas pelo Partido Democrata, de sua população ser majoritariamente não branca e de serem lideradas por prefeitos negros. Portland é governada pelo prefeito democrata Keith Wilson e 67% de seus habitantes são brancos, de acordo com o censo americano. Ainda assim, a cidade é um foco de ativismo de esquerda, tendo sido alvo de protestos também no primeiro mandato de Trump. Nomeada pelo próprio Trump em 2019, a juíza Immergut afirmou que não há indícios de que os protestos recentes em Portland tenham alcançado o nível de uma rebelião que justificaria o envio de tropas. “Eu nomeei o juiz e ele [sic] faz isso assim?” disse Trump após o anúncio da decisão, afirmando que a cidade estava tomada por “agitadores e insurgentes”. No processo, o governo federal afirmou que a cidade estava “devastada pela guerra”, e os advogados do gabinete da Procuradoria-Geral do Oregon contestaram a argumentação, dizendo que as manifestações foram “pequenas e pacíficas”, com apenas 25 prisões em junho e nenhuma detenção registrada nos três meses e meio seguintes. O governo Trump apresentou recurso à Justiça. “O presidente exerceu sua autoridade legal para proteger ativos e funcionários federais em Portland após motins violentos e ataques contra as forças da lei —esperamos ser vindicados por uma instância superior”, afirmou a Casa Branca. O vice-chefe de gabinete de Trump, Stephen Miller, chamou a decisão de “insurreição legal” e chamou as manifestações de “ataque terrorista organizado contra o governo federal e seus agentes”. “O envio de tropas é absolutamente necessário para defender nosso povo, nossas leis, nosso governo, a ordem pública e a própria República”, escreveu ele em um post no X. O prefeito de Portland declarou que a cidade “estava pacífica” e que a narrativa do presidente “foi fabricada”. Trump já havia enviado tropas da Guarda Nacional para cidades como Los Angeles e Washington. No sábado, a Casa Branca anunciou que o presidente autorizou o envio de 300 soldados da Guarda Nacional para Chicago, apesar da resistência das autoridades locais. No mês passado, o presidente chamou o lugar de “a cidade mais perigosa do mundo”, apesar de as estatísticas mais recentes mostrarem queda nos casos de homicídios. O governador de Illinois, o democrata J. B. Pritzker, condenou o envio de tropas a Chicago, afirmando que a gestão Trump não estava perseguindo criminosos, mas “apenas prendendo pessoas que são pardas e negras e depois verificando suas credenciais.” Pritzker acrescentou que os agentes federais são os que estão transformando a cidade “em uma zona de guerra.” Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Com 2,7 milhões de habitantes e quase 10 milhões na região metropolitana, Chicago é a terceira cidade mais populosa dos EUA (atrás de Nova York e Los Angeles) e tem sido governada pelo Partido Democrata de maneira ininterrupta há 90 anos, em uma das regiões mais alinhadas à legenda no país. O processo que levou à proibição do envio de agentes em Portland foi apresentado à Justiça no último dia 28 pelo procurador-geral do Oregon, Dan Rayfield, um dia após Trump anunciar o envio de tropas. O estado pediu que a Justiça declarasse a mobilização ilegal, argumentando que o presidente exagerou a ameaça representada pelos protestos contra suas políticas migratórias para justificar o controle indevido das unidades estaduais da Guarda Nacional. Na decisão, a juíza Immergut declarou que o Oregon tem “grande probabilidade” de vencer a ação.
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