“Num país repleto de degenerados, vigaristas e inimigos políticos importados… Somos uma irmandade de europeus brancos que compartilham os mesmos valores.” O panfleto jogado nas ruas dava o tom da marcha de ultradireita que atravessou Londres neste sábado (16), sob forte esquema policial, e prometeu uma “batalha pela Grã-Bretanha”. A uma distância de quarteirões, outra multidão participava de sua antítese, o Nakba Day, em defesa do Estado palestino. A involuntária demonstração de civilidade britânica, que mobilizou 4.000 agentes e custou £ 4,5 milhões (R$ 30 milhões) aos cofres públicos, foi a maior operação da segurança britânica nos últimos anos. Um sistema de reconhecimento facial e a uma nova legislação contra discurso de ódio foram usados pela primeira vez pela Polícia Metropolitana, gerando 43 prisões e acusações de censura. Tommy Robinson, ativista anti-imigração e de histórico islamofóbico, que prometeu milhões nas ruas e “o maior evento da história do Reino Unido”, juntou 60 mil pessoas, segundo estimativa das autoridades. No ano passado, o Unite the Kingdom reuniu mais de 100 mil, ou 150 mil de acordo com algumas contagens, provocando diversas reações pelo país, inclusive do governo Keir Starmer. Em outra parte da capital inglesa, o aniversário do êxodo forçado dos palestinos em 1948 para a criação de Israel reuniu 30 mil pessoas, pela estimativa da polícia, bem diferente dos 250 mil anunciados pelos organizadores do protesto. Houve críticas ao primeiro-ministro, mas também ao que foi visto como “criminalização da liberdade de expressão”. Novas regras permitiram à polícia monitorar os dois protestos. Discursos de ódio ou extremismo ilegal poderiam render prisão para oradores e também para os organizadores das marchas. No X, a Polícia Metropolitana relatou que ambas as manifestações decorreram “em grande parte sem incidentes significativos”. Havia expectativa de violência no ato capitaneado por Robinson, cujo verdadeiro nome é Stephen Yaxley-Lennon, a ponto de a polícia empregar, de forma inédita, inteligência artificial para detectar na multidão indivíduos com potencial de “ameaça à segurança pública”. Recurso que na Europa sofre bem mais resistência do que no Brasil, o reconhecimento facial foi precedido por cartazes da polícia que alertavam sobre seu uso em determinadas ruas da cidade. O aviso explicava a necessidade de “identificar pessoas procuradas pela Justiça” e que, salvo instrução em contrário do sistema, os dados biométricos armazenados pelas câmeras seriam imediatamente deletados. Após sua pior semana de governo, em que enfrentou uma rebelião dentro do próprio partido, Starmer alertou na véspera do protesto que Robinson e seus apoiadores estavam “incitando o ódio e a divisão” no Reino Unido. “Estamos travando uma batalha pela alma deste país.” Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Neste sábado, o ativista usou construção parecida, afirmando aos seguidores, em sua grande maioria formada por homens brancos, que deveriam se preparar para a “batalha da Grã-Bretanha” e que a manifestação era um “momento de virada”. Fazia referência à surra que o Partido Trabalhista e seu tradicional rival, o Partido Conservador, levaram do Reform UK, sigla do populista Nigel Farage, nas eleições locais da semana anterior. “Temos que nos envolver na política, temos que participar. Não vou dizer a vocês a qual partido político devem se filiar. Somos um movimento cultural. Mas vou dizer que vocês precisam se filiar a um partido”, declarou Robinson neste sábado, apropriando-se do momento político. As eleições gerais estão programadas para 2029 e o apelo nacionalista, com tintas racistas, ganha cada vez mais adeptos. “Não estamos pedindo a ninguém que saia para lutar, mas este é o momento mais importante da nossa geração.” Um dos principais observadores da ascensão da ultradireita no Reino Unido, o grupo Hope not Hate declarou que a dimensão do protesto, menor do que o do ano passado, não deveria ser levada pelo valor de face. Centenas de milhares de pessoas acompanharam a marcha e os discursos pelo streaming. A situação, afirmou a entidade em comunicado, continua “profundamente preocupante”. Cicerone de Eduardo Bolsonaro na Europa, o eurodeputado polonês Dominik Tarczynski, que foi impedido de entrar no Reino Unido para o evento junto com mais de uma dezena de ativistas, criticou diretamente Starmer em vídeo transmitido durante a manifestação. “Ele pode me banir, mas não excluir vocês. E acreditem, haverá um dia em que eu vou voltar.”
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