A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã tem o objetivo de desafiar os países que mataram o aiatolá Ali Khamenei. “Transmite a mensagem de que Israel e os Estados Unidos apenas substituíram um Khamenei por outro”, diz Ali Alfoneh, pesquisador sênior do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, em Washington, e especializado em política iraniana. Mojtaba, 56, é filho de Ali Khamenei e, embora já tivesse aparecido algumas vezes como possível sucessor do pai, tinha no parentesco uma fraqueza na disputa. A Revolução Islâmica de 1979 derrubou uma monarquia, trazendo como bandeira o fim da transmissão familiar de poder. A guerra iniciada em 28 de fevereiro, que matou o aiatolá, rearranjou as prioridades da liderança e alçou Mojtaba ao posto mais alto da hierarquia da República Islâmica. Mas, segundo Alfoneh, ele não deve acumular o mesmo grau de poder que o pai, que governou com mão de ferro por mais de 35 anos. “O novo líder precisará de tempo para consolidar sua autoridade, enquanto a liderança coletiva também pode relutar em abrir mão do poder. Portanto, pelo menos inicialmente, o novo líder supremo pode funcionar em grande parte como uma figura cerimonial”, afirma o cientista político, que é autor de livros sobre a sucessão de poder iraniana. Segundo Alfoneh, há anos o poder no país persa é mais compartilhado do que se imagina. Essa estrutura de poder, que envolve a Guarda Revolucionária, o presidente, o chefe do Judiciário e o presidente do Parlamento iraniano, torna o regime teocrático menos vulnerável a ataques externos do que uma ditadura personalista —como a de Muammar Gaddafi na Líbia—, explica o cientista político. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo “A resposta rápida do Irã à agressão israelense, sua tática de escalada horizontal gradual e a preservação da ordem nas ruas atestam a eficácia da liderança coletiva”, afirma Alfoneh. Ele diz que a divergência de posições entre Israel e EUA também envolve o futuro da liderança política iraniana. “O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu parece estar perseguindo uma política voltada para a mudança de regime, guerra civil e, em última instância, a partição do Irã”, diz. Enquanto isso, os EUA de Donald Trump estariam mais propensos a uma solução “à Venezuela”. Trump afirmou nesta segunda-feira (9) ter ficado descontente com a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo. Também sinalizou que o fim da guerra pode estar próximo. O que não significa, diz Alfoneh, que a situação no Irã não pode continuar a se deteriorar até uma potencial guerra civil. Além disso, diz, o bombardeio sistemático de unidades do Comando da Guarda de Fronteira, delegacias de polícia e bases da Guarda Revolucionária e do Exército regular ao longo da fronteira com o Iraque podem impulsionar a emergência de um conflito entre grupos étnicos. “É assim que guerras civis começam.” O cientista político afirma ainda que a guerra pode ter o efeito contrário ao objetivo declarado dos líderes dos EUAe de Israel, de acabar com o programa nuclear iraniano. Embora as capacidades de produzir armamentos do tipo agora estejam em ruínas, “os ataques israelenses e americanos indiscutivelmente reforçaram a necessidade de o Irã possuir um dissuasor nuclear”.
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