A Argentina da ditadura militar é conhecida muito além de suas fronteiras. Menos conhecido é o país que existiu imediatamente antes dela: uma democracia em que guerrilhas sequestravam e matavam, grupos parapoliciais de extrema direita perseguiam adversários e a violência começava a ocupar o lugar da política. É nesse intervalo vertiginoso, entre a morte de Juan Domingo Perón, em 1974, e o golpe de 1976, que se desenrola a história de “Born”, livro da jornalista argentina María O’Donnell. O episódio escolhido para registrar esse período é um verdadeiro thriller político. Em 19 de setembro de 1974, pouco depois da morte de Perón, os chamados Montoneros (integrantes de uma guerrilha urbana da esquerda peronista) sequestraram Juan e Jorge Born, herdeiros de um dos maiores conglomerados empresariais da Argentina. O resgate pedido foi de US$ 60 milhões (cerca de R$ 2,1 bilhões, na cotação atual). O’Donnell abre o livro com a reconstituição eletrizante da emboscada. À luz do dia, militantes disfarçados de funcionários de uma empresa de serviços públicos interceptam os carros em que os irmãos estavam. Em minutos, dois integrantes de uma das famílias mais ricas do país desaparecem nas mãos da guerrilha. A cena remete à abertura do filme “Ainda Estou Aqui” (2024), em que uma batida do Exército num túnel, à procura de “subversivos”, introduz a violência da ditadura no cotidiano carioca. Em “Born”, porém, há uma inversão incômoda: quem executa a operação armada é a esquerda revolucionária, e os alvos são empresários. A coincidência torna sugestivo que “Born”, publicado em 2015, esteja entre os próximos projetos de Walter Salles, diretor de “Ainda Estou Aqui”. Se seu último filme oferecia uma história que a esquerda latino-americana podia abraçar, “Born” é uma pílula mais amarga: obriga a olhar também para a violência praticada em nome da revolução. Perón morreu em julho de 1974. A Presidência passou para a sua mulher e vice, Isabelita. À sombra do governo atuava a “Triple A”, uma organização parapolicial que perseguia adversários identificados com a esquerda. Do outro lado, os Montoneros e o Exército Revolucionário do Povo (ERP), um dos principais grupos guerrilheiros argentinos, recorriam à luta armada. A Argentina ainda era uma democracia, mas já vivia na antessala do golpe. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Os Montoneros haviam lutado pelo retorno de Perón do exílio, imaginando encontrar nele o caminho para uma transformação revolucionária. Porém, de volta ao poder, o político se aproximou do sindicalismo tradicional e rompeu com a juventude radicalizada. Os Born foram escolhidos por serem herdeiros da Bunge & Born, um dos mais poderosos grupos econômicos argentinos. Eram inimigos de classe e uma extraordinária fonte de recursos: sequestros extorsivos de empresários também financiavam a guerrilha. O’Donnell reconstrói a operação e o cativeiro e acompanha suas consequências. Quinze anos depois, Jorge Born voltaria a negociar com antigos Montoneros para tentar recuperar parte do dinheiro do resgate. Uma das jornalistas de maior prestígio da Argentina, O’Donnell teve no testemunho de Jorge Born uma peça fundamental de sua investigação. Além da adaptação cinematográfica, “Born” será lançado no Brasil, pela Intrínseca, em 2027. O’Donnell recupera os anos em que uma democracia se deteriorava sob a violência da extrema direita e da esquerda armada, sem que o golpe que viria a seguir estivesse predeterminado. É essa Argentina anterior às certezas da história que “Born” ajuda a compreender.
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