A primeira faixa que dá nome ao segundo álbum do pernambucano Luiz Lins, “Os Canalhas Também Envelhecem”, carrega um discurso poético calcado na construção de uma persona emocionalmente blindada e uma atmosfera sonora alicerçada em beats marcados de um rap americanizado. Uma abertura que carrega em si um disfarce para o que será liricamente e sonoramente não apenas o restante do trabalho, mas, em alguma medida, o que vem sendo a trajetória de Lins em sua consolidação como um dos nomes mais cativantes que surgiram no cenário pernambucano nesta última década. Um disco, disponível desde a última semana nas principais plataformas, e uma carreira amadurecida por meio da capacidade de flutuar por uma diversidade de ritmos e texturas sonoras sem soarem avulsos ou desconexos. Uma experiência amarrada pelo manejo de Luiz Lins, ao lado de parceiros de longa data como os produtores Mazili e JnrBeats, em conseguir sempre preservar uma assinatura estética desenvolvida ao longo desses anos, a partir de uma atmosfera equilibrada entre vulnerabilidades, melodramas, euforias e melancolias. Para Luiz, a maturidade artística que vem acumulando nesse período não se torna uma garantia de processos artísticos mais seguros, mas é justamente nesse risco perpétuo que ele encontra um forte combustível criativo. “Nada me dá segurança. É uma questão de confiança na minha vontade de fazer. Se fosse para ganhar dinheiro ou pela manutenção da minha existência, eu fazia outra coisa”, afirma o músico, em entrevista ao Brasil de Fato. Um processo em que o risco se paga pelo prazer da experimentação e da liberdade. “Eu quero ser plural, me observar por diversas óticas, ser diversos Luizes musicalmente falando. Nada me dá essa segurança, mas também não tenho medo”, complementa. Nesse processo de pluralidades, Os Canalhas Também Envelhecem carrega uma série de melodramas poéticos que passeiam por amores que titubeiam entre presente e passado, clamores exasperados – Deus me perdoe, mas eu rezo toda noite para que acabe com seu noivo, diz um verso da faixa “Todas as Coisas que Brilham” – , mentiras vindas de si e de outros, discussões acaloradas e mágoas afogadas em bebidas. Versos em atmosferas sonoras condizentes aos das cenas de mesas dos mais singelos bares de bairro, com o sofrimento sendo decantado em garrafa de cachaça, enquanto as caixas de som vão contrastando guitarras maliciosas com sanfonas melancólicas, forrós de paredão, latinididades e bregas românticos, sonoridades presentes neste trabalho de Lins. Os Canalhas Também Envelhecem não inaugura essas flutuações rítmicas no trabalho de Lins. Seu primeiro disco, Plástico, de 2023, também dava lugar a gêneros como o rock emo, por exemplo, e o brega romântico. Mas aqui os processos criativos se tornaram distintos a partir da natural maturidade que o tempo traz, com Luiz buscando se apropriar mais ainda das diferentes etapas de criação. Se naquele primeiro trabalho lhe coube um papel mais de se isolar para trabalhar em composições e o processo de produção acabou ficando de uma forma mais solitária nas mãos de Mazili, agora o músico se sentia confiante em ser mais ativo nestas últimas fases. “Em Plástico, eu vinha estudando bastante e tinha muito interesse no que viria a ser minha caminhada como produtor, mas ainda não tinha expertise, então o processo acabou ficando muito na mão de Mazili, que levou muito bem o trabalho. Agora, até como indicativo de onde estou como profissional, o trabalho passou mais tempo nas minhas mãos, desenvolvendo harmonias, instrumentações, idealizações e, posteriormente, entraram Mazili e JnrBeats, a partir da preparação mais cuidadosa que tive. Isso me reflete como produtor e compositor, o fruto dos meus estudos”, explica. Um domínio que fez ter mais claras também possibilidades de vozes que pudessem se somar à sua a partir do que cada textura sonora pedia. É assim que o álbum acabou contando com luxuosas participações que vão passar por Raphaela Santos, João Gomes, Mestrinho, MC Tocha, MC Braz e Wiu, que embarcam nas narrativas propostas por Luiz, em um mosaico interessante de timbres que vão dar conta também de fantasmas, memórias, sensações e ideias sobre romances e a vida. O projeto chega em um momento em que Luiz Lins também vive uma daquelas redescobertas que a circulação atual do mercado fonográfico vive diante das volatilidades dos algoritmos e das redes. “Saudade”, música sua lançada há oito anos, em parceria com o paulista Konai, viralizou em diversas plataformas, sendo trilha de novas trends e foco de releituras e remixes, alcançando números maiores do que os da época de seu lançamento, em 2017. Esse novo fenômeno é encarado por Luiz como uma evidência da capacidade atemporal de suas criações. “Minhas músicas não são complexas, são coisas que julgo como simples quando estou fazendo, apenas frutos de experimentos, mas que acabam se provando ao longo do tempo, de uma forma que não tenho controle”, elabora o músico. Ele também vê nisso tudo um sinal de amadurecimento (ou envelhecimento) da arte de um suposto canalha. “Começam a aparecer também pessoas dizendo que me escutam porque ouviam com um irmão mais velho ou com a mãe, gente que fala que me ouve desde que era adolescente. Acredito que tem algo de um impacto geracional nisso também”, conclui.
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