O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reiterou nesta sexta-feira (14) que só avaliará a indicação do embaixador dos Estados Unidos no Brasil depois da eleição. O governo americano, comandado por Donald Trump, subverteu a praxe diplomática e anunciou o nome de Daniel Perez antes de haver o aceite do Brasil –procedimento conhecido como agrément. “Eles agora querem que eu apressadamente aceite o agrément do embaixador dele [Trump]. Agora, só depois das eleições. Se o embaixador dos EUA é importante no Brasil, por que eles ficaram um ano e seis meses sem mandar embaixador para cá e querem mandar faltando 45 dias para as eleições?”, disse o presidente brasileiro. Lula afirmou que está tentando falar com Trump, mas que o processo de marcar uma ligação telefônica com outro chefe às vezes demora um mês. “Vou dizer: não se meta nos negócios do Brasil, e sobretudo na questão da eleição. E se se meterem, vão perder. Quem vier dar palpite na eleição aqui vai perder”, afirmou o presidente. De acordo com Lula, suas interações com Trump costumam ser positivas, e o americano o trata de forma respeitosa. O petista também mencionou a abertura do processo de reciprocidade contra o tarifaço imposto pelos EUA a produtos brasileiros. “Nós entramos com a lei da reciprocidade para mostrar que a gente também não é pouca coisa. Nós nos respeitamos”, disse o presidente brasileiro. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Na quinta-feira (13), o Brasil notificou o governo americano do início do processo. Nessa primeira fase, o Brasil solicita análises diplomáticas antes da aplicação em si. Lula fez as declarações em entrevista, transmitida em vídeo, ao podcast Não Inviabilize. As entrevistadoras demonstravam ser simpáticas ao presidente da República. Uma delas, no início da conversa, disse que havia chorado ao ver o petista. O presidente tem dado entrevistas a podcasts para tentar atingir públicos que não o seguem normalmente, especialmente os mais jovens. Recentemente, ele também falou ao Inteligência LTDA. e ao Meteoro Brasil. Com essa estratégia, ele evita ser submetido a perguntas mais duras que costumam ser feitas em entrevistas a grandes veículos de imprensa que cobrem o dia a dia da política. Neste ano, a única entrevista exclusiva do petista a um veículo de imprensa de alcance nacional foi em fevereiro, ao UOL. Nas viagens aos estados, o petista costuma falar com emissoras locais afiliadas a grandes redes de televisão. No último dia 7, o Senado dos EUA aprovou a indicação de Perez para o cargo, algo que não muda o fato de que ele precisa do aval do governo brasileiro para assumir a representação diplomática. A indicação do aliado de Trump se transformou no principal foco da mais recente crise diplomática entre Brasil e EUA. A Casa Branca acusa Brasília de atrasar de forma deliberada a concessão do agrément e afirma que deu ao governo Lula “todas as oportunidades para fazer a coisa certa”, mas que encontrou sucessivos adiamentos e obstáculos. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Como resposta, Washington anunciou, no início de agosto, a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti. O Departamento de Estado classificou a decisão como uma medida recíproca e afirmou que a diplomata continuará reconhecida como representante oficial do Brasil. Na prática, Viotti poderá permanecer em Washington e continuar exercendo suas funções, mas, caso deixe o território americano, precisará solicitar um novo visto para retornar. Na ocasião, Lula criticou o governo americano pela retirada do visto de Viotti, chamando a ação de impensada e irresponsável. O presidente brasileiro afirmou ainda que eventuais intromissões estrangeiras nas eleições brasileiras não serão aceitas. Também disse que se o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fizer campanha para seus adversários, a manobra poderá dar errado. “Se o secretário de Estado quiser vir aqui fazer comício para o meu adversário, é até bom”, disse o petista. O presidente disse querer “derrotar todos eles juntos”.
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