A Câmara do Rio recebeu na noite desta sexta-feira (8) uma sessão solene em homenagem à luta de militantes históricos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de diversas organizações pelo compromisso com a reforma agrária, a segurança alimentar e a agroecologia no Rio de Janeiro. A vereadora Maíra do MST (PT), que organizou a iniciativa, fez um discurso conectando as lutas do campo e da cidade. “Se a fome é fruto da desigualdade, é com justiça social, construção de políticas públicas eficazes e ouvindo os territórios é que podemos superar os dados alarmantes. A luta por território, por moradia, é uma expressão da luta pela reforma agrária nas cidades. Nosso compromisso com a segurança alimentar é também em defesa do território para construção de um projeto de vida para a classe trabalhadora e para a juventude”, disse Maíra. Ao receber a Medalha São Francisco de Assis, o dirigente nacional do MST João Pedro Stédile resgatou que o santo católico inspira a defesa da natureza e pode ser considerado o primeiro agroecologista de todos os tempos. “Contam as histórias que ele dialogava com os animais, com as plantas, com as águas. Então, saibam todos vocês, que o primeiro agroecologista em nosso planeta Terra foi São Francisco de Assis. Essa medalha resgata a tradição revolucionária desse que depois foi classificado como santo e que nos ajuda a inspirar as lutas atuais, independente da fé religiosa que cada um cultua”, discursou. Já a deputada Marina do MST (PT) dedicou a Medalha Chiquinha Gonzaga às mulheres, às cozinhas solidárias e às acampadas e assentadas da reforma agrária do Rio de Janeiro. “Dedico sobretudo àquelas que todos os dias carregam a sua luta popular, da organização dos trabalhadores e trabalhadoras dos seus territórios, quilombos, comunidades tradicionais, caiçaras, indígenas. Vamos seguir produzindo alimento, garantindo saúde para as pessoas e para a natureza através da soberania alimentar. A luta pela terra é, acima de tudo, pela vida”, disse a parlamentar. A cerimônia teve início com a música Cio da Terra, e declamação de poesia em homenagem ao militante Oziel Alves, um dos principais símbolos de resistência do MST, executado aos 18 anos no Massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará. A frase “Oziel presente” simboliza a continuidade da luta pela reforma agrária. A primeira moção foi concedida a Dona Zeni, que se aposentou como agricultura urbana no Rio de Janeiro. O evento reconheceu a trajetória de 53 personalidades, entre instituições de ensino e pesquisa, movimentos sociais, coletivos e redes de segurança alimentar, nutricional e agroecológica. Em um dos momentos mais emocionantes da noite, o dirigente estadual do MST Mateus Silva relembrou a trajetória do seu pai, Cícero Guedes, do passado em situação análoga à escravidão em Alagoas à conquista do seu pedaço de terra. O sítio Brava Gente no assentamento Zumbi dos Palmares, se tornou referência em produção agroecológica. Mateus também recordou o assassinato do pai por pistoleiros. “Se passaram 12 anos, mas eu lembro como se fosse hoje. Meu pai saiu para uma tarefa e nunca mais voltou”, disse. Ele afirmou agradeceu a deputada Marina, que é sua madrinha de batismo, pelo elo com o Cícero e a continuidade da luta pela reforma agrária no MST. “Os companheiros e companheiras ele tinha como irmãos, ele tinha um amor muito grande por aqueles e aquelas que travavam a luta pela terra, pela educação e pela agroecologia”, completou ao receber a Medalha Pedro Ernesto como homenagem póstuma a Cícero Guedes. Ao Brasil de Fato, a vereadora Maíra do MST reafirmou que a homenagem a Cícero Guedes honra a memória da luta pela reforma agrária no Rio de Janeiro e dos companheiros tombados nesse caminho. “Homenagear Cícero é um dever de memória”, resumiu. “Atribuir a medalha Pedro Ernesto post-mortem ao Cícero Guedes significa um compromisso com a democracia, significa um compromisso com a memória dos trabalhadores rurais do estado do Rio de Janeiro e também a afirmação de que toda essa luta nunca foi em vão, mas ela é produto da construção de uma luta justa e que segue viva”, disse Maíra. Solenidade na Câmara do Rio reuniu acampados e assentados da reforma agrária | Crédito: Jeff Augusto Reforma Agrária Popular Ao Brasil de Fato, Stédile ressaltou a importância dos camponeses para o estado do Rio de Janeiro em produzir alimentos agroecológicos e orgânicos que abastecem feiras e espaços de comercialização, como o Armazém do Campo, ou em parceria com instituições públicas. “A sociedade fluminense é majoritariamente urbana. Como consequência, o estado do Rio de Janeiro é totalmente dependente de alimentos que vêm de fora. Talvez se produza só 10% dos alimentos aqui no estado. De maneira que os movimentos camponeses, ainda que residuais, do ponto de vista da população, cumprem um papel importantíssimo, que é produzir alimentos para a cidade. Mas não é qualquer alimento, é alimento saudável”, disse. Também presente na sessão solene, o deputado federal Lindbergh Farias (PT) exaltou os homenageados e relembrou o anúncio realizado no último final de semana de criação do Assentamento 15 de Abril, no norte fluminense. “A alegria dos trabalhadores foi muito grande”, disse o deputado. Segundo a vereadora Maíra, a reforma agrária popular defende que uma série de direitos venha acompanhando a conquista da terra. “A gente entende que a reforma agrária não é uma luta apartada do conjunto da sociedade. As áreas, quando ocupadas, também precisam de estruturação. O direito à educação, o direito à saúde, o direito à cultura são direitos básicos da sociedade, e o popular vem nesse sentido de demonstrar que só a ocupação da terra não basta, é preciso dar condições para que os trabalhadores sigam residindo nela”, explicou. Ao Brasil de Fato, a deputada Marina do MST ressaltou que as lutas mais importantes do movimento dialogam com o conjunto da sociedade ao propor um projeto para benefício de todos. Nesse sentido, o reconhecimento do trabalho de organizações e coletivos que atuam para o fortalecimento da soberania alimentar é fundamental. “A produção de alimentos saudáveis, das garantias da segurança e da soberania alimentar com a agroecologia é um desafio que nós temos que construir. A essência da democracia, de democratizar, é o poder público reconhecer essas lutas, desses territórios onde as pessoas estão vindo”, afirmou. Assentamento Cícero Guedes O dirigente estadual do MST Mateus Silva falou ao Brasil de Fato sobre a conquista do assentamento Cícero Guedes e o histórico de violações da extinta Usina Cambahyba, ligado à ocultação de corpos durante a ditadura militar. O local foi alvo de disputas na Justiça por mais de 20 anos e, a partir de ocupações do MST, hoje abriga o assentamento formado por famílias camponesas. “Para a gente, foi uma justiça social muito grande que foi cumprida, com todo o histórico daquela região, daquela terra que tem a usina, com toda a relação com a ditadura. É uma dívida histórica que aquela região tem com o país, principalmente com a sociedade de Campos Goytacazes, e também por nunca ter se solucionado e prendido os executores do meu pai. Então a gente se sente um pouco como se a justiça estivesse sendo cumprida com aquelas terras destinadas a 185 famílias, que vão produzir alimentos saudáveis”, disse Mateus. O dirigente também comemorou o projeto de agroindústria e geração de renda no Norte Fluminense, lançado pela Escola Estadual de Formação e Capacitação à Reforma Agrária (Esef) do MST no RJ, no assentamento Zumbi dos Palmares. Um dos eixos do projeto prevê a criação de um memorial online sobre o histórico da Cambahyba, que foi palco de violações trabalhistas e crimes da ditadura, mas também de resistência e luta pela reforma agrária.
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