A figura esbelta da presidente Claudia Sheinbaum cruza as fronteiras do México, como uma governante comprometida com a democracia num tempo em que autocratas pretendem destruí-la. O mundo olha com admiração a afilhada política do ex-presidente López Obrador, firme ao encarar os insultos de Trump contra os imigrantes mexicanos. Por este e outros motivos, Sheinbaum surfa a boa maré. Tem 76% de aprovação, num mandato que vai até 2030. Já se disse que seu governo serviria de modelo para a esquerda e a centro-esquerda na América Latina. Diante do entusiasmo, vale recuperar as palavras do poeta, ensaísta e Nobel de Literatura Octavio Paz (1914 – 1998), sobre a identidade nacional do lugar onde nasceu: “O México é um país barroco”. Referia-se às formas retorcidas de um mundo exuberante, visceral, em que as oligarquias sempre deram a última palavra, e o populismo deitou raízes. Sheinbaum deve ser vista nesse contexto. É inegável o avanço do Morena, partido da presidente, situado no campo da esquerda, em coligação com a direita. O Morena começou como um movimento social contra a corrupção, o custo de vida e a fraude eleitoral. Virou partido em 2014, fez um presidente em 2018 (Obrador), outro em 2024 (Sheinbaum), governa 23 dos 32 estados mexicanos, e a presidente conta com maioria folgada no Congresso. Estaria tudo resolvido não fossem as contradições do sucesso. Sheinbaum quer honrar duas promessas feitas a Obrador –fortalecer os programas sociais e alavancar o salário mínimo– ao mesmo tempo em que desvia da reforma fiscal e corta investimentos justamente em saúde, educação e segurança. Tem sido cobrada pela atual renovação do Judiciário e a militarização da máquina administrativa. Por mudança constitucional, o país governado pelo Morena deve renovar a magistratura em milhares de postos, via voto popular. A primeira eleição judicial, em junho, teve apenas 13% de participação dos eleitores. Resultado de um experimento político confuso, que ainda privilegia apadrinhados. Lembremos: o Judiciário no México fez história por serviços prestados aos poderosos e corruptos, decidindo sempre de costas para o povo. Mudar era preciso. O problema é o método. Já o modelo de uma administração cívico-militar, que vem desde Obrador, tem se revelado trágico. Quanto mais os militares mandam, mais o crime organizado prospera. Há perda de controle sobre territórios, e Sheinbaum prendeu mais em um período de seis meses do que o seu antecessor em seis anos. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Em edição recente, a revista americana Dissent, que desde 1954 reúne intelectuais respeitados, abriu um debate sobre o “paradoxo mexicano”. Sob a hegemonia do Morena, o país estaria mais autoritário? Para a analista mexicana Viri Ríos, não existe este risco. Ela cita o cientista político polonês Adam Przeworski, para quem a democracia é o regime em que partidos governistas perdem. E, nas últimas eleições municipais, o Morena perdeu. Contrapondo Ríos, Humberto Beck, professor de história do Colégio do México. Ele acredita que o partido persegue um modelo no qual se misturam poder centralizado, controle social e impunidade. Algo que já não assusta uma classe política emergente, abonadora do autoritarismo que atenda pelo nome de justiça social. É complexo. Octavio Paz, que, aliás, publicou muito na Dissent, conhecia bem o México. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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