Em sua primeira encíclica, o papa Leão 14 exortou os governos a desacelerarem o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, alertando que eles disseminam desinformação, priorizam o conflito e correm o risco de conduzir o mundo por um caminho de guerra sem fim. Leão, que adotou um tom mais enérgico nos últimos meses e despertou um conflito verbal com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após criticar a guerra contra o Irã, fez uma série de apelos veementes aos líderes mundiais no extenso texto publicado nesta segunda-feira (25). O primeiro papa americano pediu que a propriedade dos dados de IA não seja deixada exclusivamente nas mãos do setor privado, que os formuladores de políticas protejam os direitos dos trabalhadores e mantenham as crianças a salvo da tecnologia, e instou ao abrandamento da competição entre empresas de IA. “O que é necessário é um envolvimento político mais ativo, capaz de desacelerar as coisas quando tudo está acelerando”, disse o pontífice no texto, intitulado “Magnifica Humanitas” (Humanidade magnífica). O papa pediu “estruturas jurídicas robustas, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade”. As encíclicas são uma das formas mais elevadas de ensinamento de um pontífice aos 1,4 bilhão de membros da Igreja. O texto, com quase 43 mil palavras, vem sendo elaborado praticamente desde a eleição de Leão como papa, há pouco mais de um ano. O documento, que abordou a IA como tema principal, também condenou o número de guerras que assolam o mundo, lamentou o enfraquecimento das organizações multilaterais e alertou que os lucros da indústria de armas são uma força motriz por trás dos conflitos. “Os últimos 60 anos foram marcados por conflitos de brutalidade surpreendente, muitas vezes afetando populações civis em grande escala”, afirmou Leão. “A humanidade está caindo em uma cultura violenta de poder, onde a paz não aparece mais como uma responsabilidade a ser assumida, mas como um intervalo frágil entre conflitos”, disse. Leão também fez uma das declarações mais claras até agora de um papa repudiando a teoria da guerra justa, uma doutrina que a Igreja vem usando desde pelo menos o século 5 para avaliar conflitos globais. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A doutrina, que geralmente afirma que as guerras só devem ser travadas para se defender contra uma agressão, também tem sido invocada por autoridades do governo Trump, incluindo o vice-presidente J. D. Vance, que é católico, para defender a guerra contra o Irã. “A teoria da ‘guerra justa’, que tem sido usada com demasiada frequência para justificar qualquer tipo de guerra, está agora ultrapassada”, escreveu. “O uso da força, da violência e das armas reflete uma pobreza relacional que sempre tem consequências desastrosas para as populações civis.” Leão também expressou preocupação com a possibilidade de líderes iniciarem guerras para distrair os cidadãos das questões internas. “Não podemos descartar a possibilidade de que alguns líderes possam considerar o conflito armado como uma forma eficaz de desviar a atenção dos problemas internos e uma ferramenta cínica para lidar com as dificuldades”, afirmou. O papa disse que qualquer uso da IA na guerra “deve estar sujeito às mais rigorosas restrições éticas” e considerou “inaceitável” confiar decisões letais a sistemas de IA. Leão citou séculos de ensinamentos papais anteriores sobre questões de justiça social antes de abordar a ética dos sistemas de IA. O pontífice invocou especificamente seu predecessor Leão 13, que publicou uma famosa encíclica em 1891 que clamava por melhores salários e condições para os trabalhadores durante a Revolução Industrial. O atual papa condenou o que chamou de “novas formas de escravidão” sofridas por pessoas que cuidam de sistemas de IA e por trabalhadores de fábricas que produzem os dispositivos tecnológicos, como computadores e smartphones, nos quais a IA é utilizada. “Em algumas regiões do mundo, crianças e adolescentes trabalham em condições perigosas, triturando os materiais dos quais são extraídos elementos de terras raras”, escreveu. “Os corpos dessas pessoas ficam marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente”, disse. “Essa realidade desafia profundamente a consciência moral de nosso tempo.” O papa também reconheceu que a Igreja Católica não condenou veementemente a escravidão transatlântica até o século 19 e fez um pedido de desculpas pessoal. “Isso constitui uma ferida na memória cristã”, escreveu ele. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.” Leão, que declarou na abertura da carta que desejava se dirigir aos católicos e a todas as pessoas de boa vontade, ainda afirmou que a sociedade deve enfrentar “questões cruciais” sobre como a IA está se desenvolvendo e a direção geral da liderança global. Invocando a história bíblica da Torre de Babel —em que uma tribo humana, movida pelo orgulho, tenta construir uma torre alta o suficiente para alcançar o Céu, irritando Deus—, o papa disse que a história mostra o risco de qualquer empreendimento que “aspire a alcançar o céu sem a bênção de Deus”. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris “Com o coração de um pastor e de um pai, peço a todos que abandonem a construção de mais uma Torre de Babel e unam forças para edificar o bem comum”, declarou. Leão exortou o mundo a não desistir de enfrentar os possíveis riscos dos sistemas de IA. “Pode surgir uma tentação sutil, a saber, o pensamento de que os problemas são grandes demais e nós somos pequenos demais, e que nossas escolhas, portanto, não podem fazer diferença”, escreveu. “Certamente, nem todos têm o mesmo poder de fazer a diferença”, disse Leão. “No entanto, ninguém está isento de responsabilidade. Todos nós temos nossas próprias áreas de ação.”
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