A União Africana venceu uma batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para mudar o mapa do planeta. A Assembleia Geral da ONU votou, na sexta-feira (4), a favor de substituir o mapa-múndi tradicional por um que reflita com maior precisão o tamanho da África, continente que costuma ser retratado como menos importante na cartografia. No novo mapa, chamado de Equal Earth, o Brasil também aparece proporcionalmente maior do que na projeção anterior, conhecida como Mercator. Na Mercator, o Brasil parece ter dimensão semelhante ao Alasca, embora o país seja cinco vezes maior que o estado americano. No Equal Earth, o Brasil é bem maior que o Alasca. Campanha africana A organização que reúne todos os países africanos aderiu, há um ano, a uma campanha para que se deixe de utilizar a projeção de Mercator nos mapas-múndi. A campanha, chamada Correct The Map (Corrijam o mapa), busca evitar que governos, organizações, escolas e empresas representem o continente africano em seus mapas como sendo menor do que realmente é. “Pode parecer apenas um mapa, mas na verdade não é”, disse na ocasião a vice-presidente da Comissão da União Africana, Selma Malika Haddadi, à agência Reuters. A projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo europeu Gerardus Mercator, mostra territórios mais próximos dos polos —como a América do Norte e a Europa— como sendo maiores do que aqueles situados perto da linha do Equador, como a África e a América do Sul. Essa foi a solução que Mercator encontrou para um problema matemático: representar um planeta esférico em uma superfície plana. Nessa projeção, o Brasil —que é cruzado pela linha do Equador— parece ter tamanho próximo ao de territórios muito menores, mas que ficam perto dos polos. A campanha Correct The Map promove a adoção de uma projeção conhecida como Equal Earth, que reflete com maior precisão o tamanho dos territórios, reduzindo essas distorções. Os mapas-múndi que seguem a projeção de Mercator são os utilizados como padrão por aplicativos como o Google Maps e são, possivelmente, aqueles que mais moldaram nossa imagem mental do planeta. “Durante mais de 450 anos, baseamos nossa compreensão da África e do mundo em um mapa que é equivocado”, afirma o site da Correct The Map. O movimento defende que a distorção no tamanho dos continentes no mapa é uma questão de “poder e percepção”. A diretora executiva da Africa No Filter, uma das organizações por trás da campanha, classificou a projeção de Mercator como “a maior campanha de desinformação”. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Um problema matemático É matematicamente impossível projetar de forma exata uma superfície curva, como a da Terra, em uma superfície plana, como uma folha de papel ou uma tela. Por isso, todas as representações planas da superfície terrestre apresentam, necessariamente, distorções. Dependendo da técnica utilizada para criá-las, o tamanho, a forma e a localização dos continentes variam. Os cartógrafos estão cientes desse problema há séculos e o solucionam de acordo com a finalidade pretendida para o mapa. Mercator criou sua famosa projeção – que se tornou a mais popular da história – pensando em uma necessidade específica: a navegação. Graças a ela, um navegador que utilizasse seu mapa-múndi conseguia saber em que direção seguir, com base na bússola, para ir de um ponto a outro. O problema da projeção de Mercator é que ela exagera o tamanho dos países à medida que estes se afastam da linha do Equador. Isso ocorre porque se trata de uma projeção cilíndrica, que apresenta os meridianos como linhas paralelas e equidistantes. Na realidade, porém, os meridianos convergem nos polos; ou seja, a distância entre eles diminui à medida que se afastam do Equador. A distorção característica da projeção de Mercator faz com que, por exemplo, a Groenlândia e a África pareçam ter tamanhos semelhantes, quando, na verdade, o continente africano é cerca de 14 vezes maior. Já o Brasil, que na projeção de Mercator parece menor que a Groenlândia, é na realidade 3,9 vezes maior que o território dinamarquês. A resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU foi patrocinada pelo Togo e apoiada pela União Africana. Ela obteve o apoio de 164 nações, o voto contrário dos Estados Unidos e a abstenção de seis países: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia. A resolução da ONU não obriga nenhum país a adotar o novo mapa. Antes da votação desta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, disse à Reuters que “um mundo justo começa com um mapa justo”. “Um mapa nunca é neutro. Ele molda percepções e influencia a forma como se compreende o lugar dos povos e dos continentes no mundo”, disse ele anteriormente em uma sessão informativa da ONU. Dussey contava com o apoio do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, que afirmou que o órgão francês deixaria de utilizar o mapa de Mercator. “Mudar o mapa obviamente não muda o mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce já é um ato de verdade”, disse ele.
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