A Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) completou 68 anos na terça-feira (18), com uma confraternização entre funcionários, convidados, bolsistas e ex-bolsistas que passaram por lá ao longo de quase sete décadas de transmissão quase ininterrupta. A rádio ficou fora do ar uma única vez, logo após o golpe de 1964, quando foi requisitada pelos militares. Diante da reação dos estudantes, que ocuparam o prédio, a emissora foi fechada. Quando voltou a funcionar, a censura foi imposta e toda a programação era submetida ao censor. Com a redemocratização do Brasil, a rádio assumiu definitivamente a missão de levar cultura e informação aos ouvintes, estando presente nos principais eventos de Porto Alegre e também do estado. Foi assim que a pequena e combativa equipe da emissora cobriu os festivais de Cinema de Gramado e a Feira do Livro, por exemplo. “A Rádio da Universidade progride em equipe, não se faz nada sozinho”, disse o diretor da emissora, musicólogo e doutor em história, Cláudio Remião, na festa de aniversário. “A Rádio da Universidade progride em equipe, não se faz nada sozinho”, disse o diretor da emissora, musicólogo e doutor em história, Cláudio Remião, na festa de aniversário – Foto: Letícia Heinzelmann A reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa, parabenizou a rádio e anunciou novidades. De acordo com a reitora, “a Rádio da Universidade tem uma longa história com a comunidade de Porto Alegre e com o seu entorno, mas chegou o momento de expandir, de fazer programação web, é hora da Ufrgs estar na casa das pessoas mais distantes e também em todo o mundo”. A jornalista Cláudia Heinzelmann, ex-diretora da Rádio da Universidade, e há 36 anos trabalhando na emissora, destaca a parceria da instituição com diversos movimentos sociais e instituições, como a Associação Riograndense de Imprensa (ARI), que veicula nas ondas da rádio o podcast Conversa de Jornalista. Para marcar o aniversário, a emissora, criada oficialmente em 1957, preparou uma programação especial, com uma seleção de músicas inéditas e dois novos programas: o Estúdio A, semanal, com gravações feitas nos estúdios da rádio ao longo de quase sete décadas de existência, e o Acervo 1080, que mergulha no gigantesco acervo da emissora, que conta com mais de 20 mil álbuns (vinis, CDs e outras gravações), veiculando esses registros na íntegra. Primeira estação de rádio educativa Prédio histórico abriga a Rádio da Universidade no Campus Centro – Foto: Letícia Heinzelmann A Rádio da Universidade foi idealizada em 1948 por Antônio Alberto Goetze, professor de eletrotécnica da Escola de Engenharia, com o objetivo de realizar estudos sobre irradiação e construção de transmissores. Ele fez a proposta em 1949 ao reitor Alexandre Martins da Rosa, que aprovou o projeto. Mas para criar uma rádio seria necessária também uma autorização do governo federal. A concessão foi aprovada em 1950 e a emissora foi vinculada ao Gabinete da Reitoria. A inauguração aconteceu, de fato, no ano seguinte, 1951. A partir de então, foram instalados equipamentos em um espaço do Instituto Eletrotécnico da Escola de Engenharia. O primeiro transmissor foi um aparelho Marconi TYPO TPLA, que pertenceu à Polícia Civil, com uma potência de 500 Watts, operando em ondas curtas de 3.945 kHz. Sua antena foi instalada no topo do Instituto Eletrotécnico. Foi a primeira estação de rádio educativa a ser operada por uma universidade no Brasil. Inicialmente, a rádio foi autorizada a transmitir apenas programas educativos, sobre atividades da Universidade, aulas, palestras, além de informações do Observatório Astronômico. Não podia transmitir programação musical ou recreativa, mas logo começou a pleitear essa autorização e a concessão de um canal em amplitude modulada (AM). A outorga veio em 1956 Em 1952, a rádio passou a ter locutores concursados e já possuía estrutura para fazer transmissões a partir de outros pontos da Ufrgs, como a Sala Magna da Universidade, o Salão Nobre da Faculdade de Medicina, os anfiteatros dos cursos de Física e Matemática e a Biblioteca da Escola de Engenharia. As transmissões eram diárias e tinham duração total de 4h30 minutos, divididas em blocos descontínuos, e incluíam boletim meteorológico, hora certa, noticiário escolar, palestras, conferências e música. Em 1953 a emissora ganhou um novo transmissor de 2 kW, ainda em ondas curtas, e em agosto elaborou seu Regimento Interno, instalou um Conselho Diretor e se organizou nos departamentos Administrativo, Artístico e Técnico. A rádio foi muito bem recebida pela imprensa e pelo público. Em janeiro de 1954, o reitor Paglioli, em audiência com o presidente da República Getúlio Vargas, formalizou o pedido de concessão de um canal AM, o que foi concedido. A rádio passou a operar na frequência 1.080 kHz. A outorga da rádio foi finalmente concedida em 28 de maio de 1956. Em agosto, o governo do estado cedeu terrenos na Ilha do Chico Inglês para a instalação dos seus dois transmissores, um de 2 kW e outro de 500 W, e as primeiras transmissões experimentais começaram no dia 15. A emissora foi ao ar oficialmente às 20 horas do dia 18 de novembro de 1957, sob o prefixo ZYU-67 e uma potência de 10 kW. A intervenção militar Com o golpe de 1964, o governo militar reestruturou os setores da rádio, e passou a envolvê-la em seus projetos de radioeducação, instalando em 1967 em suas dependências a Fundação Educacional Padre Landell de Moura. Em julho de 1968 assumiu a direção geral da emissora a primeira mulher, Vacília Derenji, que já era parte da equipe desde 1962. Sob sua direção a rádio ampliou o horário de transmissão, introduziu novos programas, cursos de idioma, programas sobre literatura, diversificou sua carta musical com óperas completas, jazz, música popular, musicais da Broadway e trilhas sonoras de filmes. Na década de 1970, a rádio foi submetida ao controle do recém-criado Centro de Teledifusão Educativa, um órgão da Pró-Reitoria de Extensão, e teve sua estrutura reformulada por um novo Regimento Interno. Entre as mudanças mais importantes estavam a criação dos setores de Cursos e Radioteatro. Cinco anos depois, 1975, a emissora foi autorizada pelo Ministério das Comunicações a operar com uma potência de 10 kW. E, em maio de 1979, iniciou as transmissões experimentais com 10 kW, passando a atingir uma área com raio de 200 a 300 km. A falta de verbas para suas atividades foi um problema recorrente, e ainda é uma questão contemporânea. Na década de 1980, a rádio entrou em uma grande crise financeira. Problemas de qualidade do sinal começaram a gerar queixas dos ouvintes e a potência caiu para 1 kW devido à falta de verba para substituição de peças dos equipamentos. Mesmo assim, a rádio conseguiu fazer a cobertura das eleições municipais de 1988 e em 1989 colocou no ar o programa Vota Brasil, com professores da Ufrgs comentando a conjuntura das eleições para presidente da República. As inovações nos anos 1990 Nos anos 1990, a emissora conseguiu se recuperar e foi modernizada. Em julho, a Rádio da Universidade se tornou a primeira emissora AM da cidade a usar CDs na programação musical. Ao mesmo tempo foram adquiridos novos equipamentos, incluindo um novo transmissor com modulação digital e outro híbrido para possibilitar a transmissão de entrevistas por telefone. Em 1995, a emissora iniciou a digitalização do seu acervo musical e, em novembro do mesmo ano, passou a transmitir 24 horas por dia. Em setembro de 1997, a estação inaugurou o seu website, e em março do ano seguinte, a Ufrgs AM se tornou uma das primeiras emissoras de rádio do Brasil e a primeira de Porto Alegre a transmitir a sua programação simultaneamente em streaming pela internet. No século 21, a rádio seguiu firme no seu propósito de informar e também entreter.
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