Reparação é redistribuição de dinheiro, terra e poder, não gesto simbólico ou discurso. Quando uma instituição reconhece que acumulou riqueza diretamente do tráfico transatlântico e da escravização, há responsabilidade material no presente. Com essa premissa, o Scott Trust, grupo que controla o jornal britânico The Guardian, anunciou a ampliação do Legacies of Enslavement (legados da escravização, em inglês), no último 21 de abril. A nova etapa do programa cobre o período de 2026 a 2030 e dá sequência a um processo iniciado após a comprovação de que os fundadores e financiadores do jornal lucraram diretamente com o tráfico e o trabalho escravizado. Conforme anunciado na fase anterior, em 2023, os recursos mobilizados ultrapassam 10 milhões de libras ao longo de dez anos e se concentram em territórios diretamente ligados a essa história, com destaque para a Jamaica e o sudeste dos Estados Unidos. Em Hanover, na Jamaica, parte do financiamento sustenta a reconstrução de áreas atingidas pelo recente furacão Melissa, com recursos destinados a infraestrutura, apoio a pequenos negócios e formação técnica. A intervenção reconhece que regiões marcadas por exploração prolongada concentram impactos ambientais mais intensos e menos infraestrutura para enfrentá-los. A mesma economia que produziu capital excedente para investidores britânicos deixou territórios mais expostos e com menor capacidade de resposta a eventos extremos. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O programa foi estruturado de forma colaborativa, a partir de centenas de encontros com comunidades descendentes, pesquisadores e organizações. Além do enfrentamento das desigualdades ambientais, são prioridades o acesso à terra, à educação, à geração de renda e à memória. As comunidades envolvidas vão participar da avaliação dos resultados, arranjo que permite algum controle externo, ainda que volume de recursos, duração e abrangência continuem definidos por quem tem o dinheiro. A ausência de modelos consolidados de reparação faz da iniciativa um laboratório conduzido por uma empresa que reconhece seu papel na produção e na reprodução das desigualdades. Cabe lembrar que, em 25 de março de 2026, a Assembleia-Geral da ONU aprovou uma resolução que reconhece a escravização de africanos e seus descendentes, junto ao tráfico transatlântico, como o mais grave crime contra a humanidade. A escravização legal passa a ser reconhecida como um processo com efeitos contínuos, em vez de passado encerrado. No Brasil, onde a escravização negra estruturou a economia por mais tempo e com maior capilaridade, e onde o racismo atravessa ainda hoje todas as desigualdades, reparação segue sendo retórica. A relação entre nosso passado-presente com a concentração de renda, a distribuição da terra e a violência cotidiana é amplamente documentada. Desconheço iniciativas institucionais, públicas ou privadas, com investigação própria e compromisso material de longo prazo comparáveis ao que tem feito o Guardian. Reparação exige alterar a estrutura que mantém o dano ativo e atualizado. Exige transferência efetiva de dinheiro e poder. Desde 1891, ainda não tivemos uma mulher negra no STF. Como afirma a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, ainda estamos no 14 de maio de 1888. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Ultimas Noticias
- Rafa de Hildecio mostra que herdou a política do pai, mas faz do seu jeito e conquista até antigos adversários
- Valença celebra um Dois de Julho histórico com praça lotada, civismo e valorização da Independência da Bahia
- Valença celebra o 2 de Julho com civismo, tradição e ampla participação popular
- Operação da PF tem prisão de bicheiro, ex-presidente da Alerj e pastor
- Brasil não vai abandonar a mesa, diz ministro sobre taxação dos EUA
- Alagoas ganha rota turística de cidades coloniais
- Brasileiros têm dia ruim em Wimbledon e caem nas duplas masculinas
- Lula inaugura túnel de transposição das águas do São Francisco no RN


