Enquanto a tensão entre os aliados europeus da Ucrânia sobre os rumos das negociações de paz promovidas pelos Estados Unidos só cresce, o presidente Vladimir Putin iniciou nesta quinta-feira (4) uma simbólica viagem de dois dias à Índia, aliada de Moscou. Em entrevista prévia a uma TV indiana, Putin defendeu o colega Narendra Modi da pressão que sofre do presidente Donald Trump para não comprar petróleo da Rússia. “Eu acho que a Índia tem de ter o mesmo privilégio dos Estados Unidos”, disse, sobre decidir de quem recebe o produto. Trump elevou em agosto de 25% a 50% as tarifas de importação de produtos indianos pelos EUA para que Modi, nas suas palavras, parasse de financiar a Guerra da Ucrânia. Até aqui, não foi muito eficaz, apesar de alegações americanas do contrário —até porque Nova Déli compra 40% do petróleo que consome dos russos. De seu lado, Putin demonstra romper o isolamento que lhe é imposto pelo Ocidente com o parceiro de Brics. Modi o recebeu com um abraço desajeitado na capital indiana, e depois o levou rumo a um jantar em um SUV da Toyota bem distante do luxo usual das limusines do russo. O russo quer retomar o papel de grande fornecedor militar de Nova Déli, além de garantir o fluxo de petróleo para a Índia. O país asiático decuplicou seu consumo e tornou-se o segundo maior comprador da commodity com os descontos generosos devido à guerra. Recentemente, a Índia investiu em caças franceses em vez dos usuais russos, e agora Putin quer emplacar o modelo de quinta geração Su-57, que só teve uma pequena venda externa até aqui, além de mais sistemas antiaéreos S-400. O arrendamento de um submarino nuclear de ataque por US$ 2 bilhões também está na mesa. O premiê da Índia tem uma relação turbulenta com Trump, que disse sem provas ter encerrado uma guerra fronteiriça entre Nova Délhi e o Paquistão em maio. Isso até o reaproximou da rival China. Putin, por sua vez, evitou criticar mais duramente o americano. “O presidente Trump age com boa fé, eu presumo”, disse, acerca das negociações que o americano tem forçado para tentar acabar com o conflito europeu. Na noite de terça (2), Putin recebeu uma delegação americana no Kremlin e, como a Folha relatou, manteve seus termos para aceitar a paz —que incluem ganhos territoriais e a neutralidade de Kiev. Empoderado por uma posição militar favorável, ele até endureceu sua posição. Nesta quinta, o negociador americano Steve Witkoff vai se reunir com enviados de Volodimir Zelenski em Miami, buscando avançar as encalacradas discussões. O cenário, como dissera Trump na véspera, é “incerto”. EUROPEUS MOSTRAM DIVISÃO Na Europa, o dia foi marcado pela exposição de rachaduras na unidade dos principais aliados de Kiev, amplamente deixados de lado por Trump nas negociações. O principal motivo é o plano da Comissão Europeia de tomar R$ 1,3 trilhão de reservas russas congeladas, a maior parte na Bélgica, para lastrear um empréstimo visando cobrir as despesas ucranianas em 2026 e 2027. Os belgas são contrários, dizendo que isso irá expor o país a processos internacionais. O premiê Bart de Wever causou furor nesta quinta ao dizer que “é uma ilusão achar que a Rússia pode perder a guerra”. Há outros fatores. Sem uma derrota, Moscou inevitavelmente será reintegrada ao sistema econômico global e aí poderá pedir a devolução de seu dinheiro. Nesse caso, segundo a proposta inicial dos europeus, quem bancará o empréstimos serão os próprios países do bloco continental. Na Rússia, que chama a proposta de roubo, o ex-presidente Dmitri Medvedev, expoente da ala mais radical do governo, disse que tal medida equivalerá a “uma declaração de guerra”. Ele exagera, mas o fato é que a linha dura do Kremlin tem influenciado as decisões recentes de Putin. O premiê alemão, Friedrich Merz, disse que o que está em debate “é o futuro da Europa” ante “a ameaça imperialista russa”. Ele e outros líderes se reunirão nesta sexta (5) em Bruxelas para tentar chegar a um acordo. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Já no campo político, a confusão ficou na conta de Emmanuel Macron. Segundo uma transcrição da conversa entre o presidente francês e outros líderes europeus na segunda (1º) divulgada pela revista alemã Der Spiegel, ele disse que “há uma chance de que os EUA irão trair a Ucrânia sobre [cessão de] territórios sem clareza acerca de garantias de segurança [contra novos ataques russos]”. A França negou o teor da conversa, mas ela foi vista como bastante verossímil por analistas, exibindo a desconfiança já deixada clara por Zelenski e pelo próprio Macron antes sobre qual o rumo que Trump quer seguir.
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