O Líbano lembrou nesta terça-feira (4) os seis anos da explosão fatal no porto de Beirute. Parentes de vítimas e autoridades libanesas expressaram esperança de que seja feita justiça em uma das maiores explosões não nucleares da história. A detonação de 4 de agosto de 2020, que matou mais de 200 pessoas e destruiu extensas áreas da capital, teria sido provocada por centenas de toneladas de nitrato de amônio, utilizado principalmente como fertilizante, que estavam armazenadas no porto. Mas a investigação sobre os produtos químicos e sobre quais autoridades poderiam ser consideradas negligentes foi repetidamente obstruída por anos de interferência política. Autoridades do Judiciário e ministros apresentaram sucessivos recursos contra os juízes responsáveis pela investigação, paralisando o inquérito. “Em países normais, isso já teria acabado, estaríamos em outra fase de nossas vidas e teríamos o direito de viver o luto”, disse Paul Naggear, cuja filha Alexandra, 3, apelidada de Lexou, morreu na explosão. “Quando não há justiça, significa que a vida de Lexou não tem valor.” Uma virada ocorreu no início de 2025, quando o presidente Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam assumiram os cargos e prometeram responsabilizar os envolvidos pela explosão. Pouco depois, o juiz Tarek Bitar retomou a investigação e apresentou um relatório ao Ministério Público no fim de março de 2026. Uma autoridade de alto escalão do Judiciário libanês, informada sobre a investigação, disse à agência de notícias Reuters que o relatório de Bitar incluía acusações contra 70 pessoas por diversos crimes relacionados à explosão. Após uma resposta do Ministério Público, Bitar preparará uma denúncia pública com os nomes dos acusados, que dará início ao processo de julgamento, afirmou a autoridade. Na noite de terça-feira, centenas de pessoas se reuniram em um ato em memória das vítimas perto do porto. Os organizadores leram os nomes dos mortos, e sobreviventes deram seus depoimentos. Vários participantes disseram esperar que, até o sétimo aniversário da explosão, os responsáveis já estejam cumprindo pena de prisão. Outros continuaram céticos quanto à capacidade do Estado de fazer justiça. Reine Abbas disse à Reuters que sempre participou da marcha anual em memória das vítimas, mas que viu o número de participantes diminuir ano após ano. “O número de familiares das vítimas está diminuindo, e isso é prova de que não há confiança. Para mim, se eu não vir pelo menos uma pessoa na prisão, não haverá confiança”, disse Abbas. O ministro da Justiça do Líbano, Adel Nassar, depositou uma coroa de flores em um memorial no porto. “O Estado e o Judiciário devem permitir que este processo chegue até o fim. Isso é indispensável para os familiares das vítimas, para as próprias vítimas, para todos os afetados e para o povo libanês”, disse Nassar. “Não podemos dizer que existe um Judiciário [no Líbano] se permanecermos em silêncio diante de uma tragédia tão grande quanto a explosão no porto de Beirute.”
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