Horas antes de seus restos mortais serem sepultados no Panteão, mausoléu dos grandes personagens da história francesa, vândalos picharam com ofensas o túmulo original de Robert Badinter, advogado que aboliu a pena de morte na França em 1981. “Eterno é o reconhecimento, assassinos, pedófilos, estupradores, a República santificam” foi a inscrição feita com tinta azul na lápide de Badinter (1928-2014) no cemitério de Bagneux, na periferia de Paris. “Vergonha aos que quiseram conspurcar sua memória”, postou o presidente Emmanuel Macron, responsável pela entrada de Badinter no Panteão, marcada para a noite desta quinta (9). Macron anunciou uma investigação para punir os vândalos. O caso ilustra como o tema da pena de morte ainda é controvertido na França, mesmo 44 anos depois de sua abolição. Na época, Badinter, um advogado judeu cujos pais foram mortos nos campos de extermínio nazistas, foi acusado com virulência pela direita de defender criminosos. Nos últimos dias, a TV francesa repetiu à exaustão um famoso discurso feito por Badinter na Assembleia Nacional, no dia da aprovação do projeto que aboliu a pena de morte. “A França é grande não só por sua potência, mas pelo brilho das ideias que a carregaram nos momentos privilegiados de sua história”, disse o então ministro da Justiça sob a presidência de François Mitterrand. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Curiosamente, o método empregado na França era o mesmo desde a Revolução Francesa: a guilhotina. A apenas 600 metros do mausoléu onde Badinter ficará definitivamente sepultado, pode-se visitar um dos últimos exemplares da arma que ele ajudou a aposentar: uma autêntica lâmina faz parte do acervo permanente do Museu da Chefatura de Polícia de Paris. Uma guilhotina completa está sendo exposta em um museu de Marselha, em homenagem a Badinter. A última execução no país ocorreu na cidade do sul da França, em 1977. Até 1939, essas execuções eram públicas. A cerimônia realizada na noite desta quinta teria ainda um aspecto político involuntário. Macron deve anunciar até a sexta (10) o nome do novo primeiro-ministro francês, em meio a uma grave crise política. A expectativa, porém, era que ele não tratasse do assunto durante o evento. A cripta do Panteão, antiga igreja transformada em mausoléu pela Revolução Francesa em 1791, abriga os restos de 75 personalidades, do filósofo Voltaire (1684-1778) ao casal de resistentes ao nazismo Missak (1906-1944) e Mélinée Manouchian (1913-1989). Existe em francês até a palavra “panthéonisation”, para descrever a entrada de uma figura importante no mausoléu. O critério de escolha é subjetivo. É preciso um decreto presidencial, após proposta do primeiro-ministro e análise do ministro da Cultura. Em tese, é preciso que a pessoa escolhida tenha nacionalidade francesa e que seus restos sejam transferíveis. Porém, há quatro estrangeiros, heróis das guerras napoleônicas, e um túmulo com cinzas de origem incerta, de outro herói da resistência na Segunda Guerra, Jean Moulin (1899-1943).
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