As autoridades da Venezuela libertaram nesta segunda-feira (3) quatro cineastas detidos na semana passada por fotografarem a fachada de uma prisão de segurança máxima do país, segundo ONGs locais. A detenção desencadeou uma onda de manifestações de organizações, artistas e acadêmicos. “Com enorme alívio e alegria compartilhamos que Katiuska Castillo Vásquez, Marcela Hernández Guerra, Ingrid Briceño Venegas e Noel Cisneros já estão em liberdade, sãos e junto de suas famílias”, afirmou a Associação Venezuelana de Mulheres Cineastas, à qual pertencem. A ONG de direitos humanos Provea também relatou a libertação, assim como outras organizações. Os cineastas trabalhavam em um projeto para a escola de Artes da Universidade Central da Venezuela quando o serviço de inteligência do regime os capturou, no dia 31 de outubro, nas proximidades da prisão de Tocorón, no estado de Aragua, no norte do país. Noel e Katiuska são estudantes universitários, enquanto Ingrid e Marcela já trabalham como produtoras profissionais. O coordenador geral da Provea, Óscar Murillo, afirmou à agência de notícias EFE que a prisão “cria um precedente perigoso para todos os estudantes e produtores audiovisuais que já trabalham com grande dificuldade para contar histórias e narrativas sobre o país”. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo “A prisão deste grupo estabelece um padrão no qual o Estado busca silenciar vozes críticas, vozes acadêmicas, a arte, e tudo isso acaba restringindo o livre pensamento e o fluxo de ideias. É por isso que acreditamos que este caso é grave”, afirmou. Por anos, Tocorón foi centro de operações da gangue venezuelana Tren de Aragua, cujos tentáculos se estenderam por todo o continente. O local ficou famoso por suas instalações inusuais para um presídio, como uma boate de luxo, um zoológico e um campo de beisebol. A construção de uma espécie de cidadela na prisão foi possível pelo controle que a organização criminosa exercia. Em setembro de 2023, o presídio foi fechado, mas menos de um ano depois, em 2024, foi reaberto para receber centenas de detidos nas manifestações que estouraram após a contestada reeleição de Nicolás Maduro, em agosto do ano passado. O ditador nunca mostrou as evidências de sua vitória, como pede a lei venezuelana. Após o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, os Estados Unidos classificaram o Tren de Aragua como uma organização terrorista. O regime, no entanto, afirma que a gangue foi desmantelada e que o crime organizado está sendo usado como pretexto para atacar Maduro. Há anos ONGs e defensores dos direitos humanos alertam sobre um padrão contínuo de detenções arbitrárias na Venezuela, o que se intensificou desde o pleito de 2024, disse uma missão de especialistas da ONU no final de setembro. No final de outubro, havia pelo menos 875 detidos “com fins políticos” na Venezuela, segundo a ONG Foro Penal. Além disso, um relatório da Anistia Internacional divulgado em julho indica que “as autoridades venezuelanas cometem desaparecimentos forçados como parte de um ataque generalizado e sistemático contra a população civil”. Nesta terça, por exemplo, o regime libertou mais um preso detido sob condições nebulosas: o jornalista dedicado à cobertura de notícias policiais Joan Camargo, 30. Seu paradeiro era desconhecido há cinco dias, segundo sua família e o SNTP (Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa), que falam em “desaparecimento forçado”. De acordo com o sindicato, Camargo havia sido interceptado por pessoas vestidas de preto no dia 30 de outubro por volta das 8h em uma área popular de Caracas. Ele foi levado em um carro sem identificação. “Exigimos uma investigação oportuna e sanções urgentes para os responsáveis pelo desaparecimento forçado do qual foi vítima durante mais de 100 horas”, exigiu a organização ao informar a libertação. As condições de sua prisão e posterior libertação não estão claras, e o Ministério Público ainda não respondeu a um pedido da agência de notícias AFP sobre informações do caso. Horas antes, o SNTP havia publicado um vídeo da mãe de Camargo, María Dolores Rodríguez, afirmando ter visitado delegacias de polícia em busca de seu filho.
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