“Machismo não é tradição: machismo, negligência e ausência matam. Estado omisso é Estado cúmplice. Por que mulheres com medida protetiva estão sendo mortas? Por que só 6% das medidas são monitoradas?” As palavras de ordem foram entoadas durante a vigília realizada no Rio Grande do Sul em memória das dez mulheres vítimas de feminicídio em menos de um mês no estado, no final da tarde desta quarta-feira (28), em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre. Com velas, cartazes e faixas, manifestantes denunciaram a violência institucional, cobraram o fortalecimento da rede de proteção e exigiram explicações do governo estadual sobre a aplicação das medidas protetivas previstas em lei. O protesto destacou que a violência de gênero constitui uma violação dos direitos humanos e exige respostas efetivas do Estado, com políticas estruturadas, financiamento adequado e proteção integral às mulheres. A manifestação teve início, nominando a presença das dez vítimas de feminicídio. Entre os dizeres entoados estavam pedidos de justiça, proteção às crianças que ficaram órfãs e o reforço de políticas públicas de prevenção. “Seguiremos lutando por essas mulheres. A morte não é um destino justo. Nós queremos vivas”, repetiam as participantes. Outras frases destacavam: “Chega de mulheres assassinadas, arrancadas das nossas vidas”, “A omissão do Estado é a morte das mulheres” e “Orçamento salva vidas”. Suplente do senador Paulo Paim e dirigente sindical da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf/CUT), Cleonice Back ressaltou a importância da união entre mulheres e do engajamento da sociedade. “Essa vigília é de suma importância, porque nós mulheres precisamos estar juntas, unidas e dar o recado à sociedade de que basta de violência, basta de feminicídio. Nós queremos viver”, afirmou. Ela também destacou o impacto dos crimes sobre as famílias e as crianças. “Muitas mulheres têm filhos pequenos que ficam órfãos. A gente pensa na vida dessas famílias, nas mães que perdem suas filhas, nos filhos que perdem suas mães, no futuro dessas crianças. Nós precisamos combater a violência, dizer basta de feminicídio e ter mais amor e empatia.” Em 2025, os feminicídios no Rio Grande do Sul deixaram 116 órfãos. Com base em relatos da imprensa, ao menos 13 pessoas ficaram órfãs em decorrência dos dez feminicídios. Ato reuniu movimentos sociais, sindicais, parlamentares e sobreviventes de violência | Crédito: Jorge Leão Back chamou ainda os homens a se somarem ao enfrentamento da violência. “Não só mulheres, mas os homens também precisam estar conosco no combate à violência, porque muitos dos feminicídios acontecem por companheiros ou ex-companheiros que não aceitam a separação e acham que a mulher é um objeto. Nós queremos liberdade, dignidade e que as mulheres não sofram mais violência dentro de casa, nem na política, nem na sociedade.” De acordo com a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (Dipam/DPGV), 85% dos feminicídios de 2025 ocorreram no contexto de relações íntimas, sendo o agressor, em sua maioria, companheiro ou ex-companheiro da vítima. Atualmente, 803 homens são monitorados por tornozeleira eletrônica no estado, o que corresponde a aproximadamente 6% das 13.012 medidas protetivas vigentes, conforme dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP). Presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM) do Rio Grande do Sul, Salete de Souza afirmou que a vigília ocorre em um momento crítico. “Estamos enfrentando esses assassinatos, esses feminicídios, não só no nosso estado, mas em todo o país. Nós não vamos mais nos calar, não vamos nos silenciar. Vamos estar nas ruas denunciando esses crimes que deixam dores profundas nas famílias, amigas e amigos, muitas crianças órfãs”, disse. Dados de 2025 indicam que, das mais de 52 mil ocorrências de violência contra a mulher, 80 resultaram em feminicídio e 264 foram tentativas. Em 2024, foram 73 feminicídios consumados e 236 tentativas, segundo o Observatório Estadual da Segurança Pública. Conforme dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, com base nas informações do Sistema Nacional de Segurança Pública (Sinesp), foram registrados em 2025, 1.470 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Ela lembrou que, até aquele dia, o estado já contabilizava dez assassinatos de mulheres. “Hoje, dia 28 de janeiro, já temos dez mulheres assassinadas, temos uma jovem de 15 anos. Essa vigília é para que não ocorra mais nenhuma morte. Nós queremos todas vivas. Esta vigília é pela vida de todas as mulheres.” Foram registrados em 2025, 1.470 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. | Crédito: Jorge Leão Dados oficiais expõem falhas na proteção As falas no ato destacaram a gravidade do cenário, a dor das famílias e a necessidade de políticas estruturadas de enfrentamento à violência de gênero. Ao Brasil de Fato, a vice-presidente do Conselho Estadual do Direito da Mulher e presidente da Associação de Promotoras Legais Populares do Rio Grande do Sul, Fabiane Lara, afirmou que a mobilização busca reafirmar a luta pela vida das mulheres. “Estamos aqui mais uma vez reivindicando o nosso direito de estar viva, reivindicando o nosso direito de viver sem violência, reivindicando que o Estado realmente se preocupe e se mova no sentido de realmente ter políticas públicas eficientes para salvar a vida de mulheres”, ressaltou. Sobrevivente de tentativa de feminicídio, Lara enfatizou que não adianta discursos dando entrevistas e dizendo “coitado dos homens”, como teria sido colocado em algumas falas, consideradas por ela no mínimo equivocadas, da secretária. “O Conselho está aqui, junto com os movimentos sociais, para reafirmar nossa luta. Não vão nos calar, não vão continuar nos matando. E seguiremos firmes para que a gente consiga libertar esse Estado misógino”, declarou. Diversas falas rechaçavam tentativas de relativizar os crimes. “Não foi crime passional, foi feminicídio”, “Não foi ciúme”, “Não foi a roupa”, “Não foi o feriado”, “Não foi o carnaval”, reforçando que os assassinatos são resultado de violência de gênero e não de circunstâncias isoladas. “Quem ama não mata”, completavam. Em 2025, no RS, foram registradas mais de 52 mil ocorrências de violência contra a mulher, 80 resultaram em feminicídio e 264 foram tentativas | Crédito: Jorge Leão O governador Eduardo Leite foi citado nominalmente durante a manifestação, com críticas à condução do enfrentamento da violência. “Governador, precisamos de políticas públicas de prevenção” e “Governador, nós não queremos mais nenhuma mulher assassinada”, afirmaram manifestantes, que também cobraram mais investimentos na rede de proteção e no cumprimento da Lei Maria da Penha. Manifestantes entoaram palavras de ordem cobrando atendimento ininterrupto à rede de proteção e denunciando o enfraquecimento das políticas públicas voltadas às mulheres. Entre as reivindicações estavam o funcionamento dos serviços por 24 horas e a reconstrução da Rede Lilás, apontada como alvo de desmonte. Também foi exigida a valorização simbólica e institucional do Centro de Referência Valia Araújo Machado, com a manutenção de seu nome e de sua atuação no atendimento às vítimas, além de atenção à Casa de Acolhida Mirabal. Presente no ato, Niara de Luz Santana dos Santos, da União da Juventude Socialista, relacionou os números à ausência de políticas públicas estruturadas. “A cada três dias uma mulher é assassinada, e hoje a gente não tem uma política decente de combate ao machismo, de promoção da vida das mulheres”, afirmou. Ela criticou a condução da Secretaria Estadual da Mulher e defendeu investimentos em serviços especializados. “Para políticas públicas a gente precisa de orçamento, precisa ter combate e promoção do direito das mulheres, delegacia da mulher, espaço de acolhimento, equipes interdisciplinares. Esse é o modo certo de cuidar das mulheres no nosso estado. Essa cultura do machismo, de dominação dos nossos corpos, é muito antiga no Brasil. Jovens e adolescentes são cada vez mais vítimas quando a gente não debate isso nas escolas, sobre o direito ao corpo.” Relatos de quem vive a violência Entre as participantes da vigília estava a microempresária Luciana Lima, que falou sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho e a motivação para estar no ato. “Sou microempresária e é difícil a gente se impor e ter respeito no meio empresarial, que é muito masculinizado. Vim porque eu quero um futuro melhor para a minha filha. Precisamos conscientizar os meninos, a juventude, porque isso é uma reação machista às lutas que as mulheres estão conquistando”, afirmou. Lima foi à mobilização pela primeira vez, e estava acompanhada de sua filha, Mariana de Lima, de 15 anos. A adolescente também compartilhou um episódio vivido por familiares. “As pessoas são muito brutas umas com as outras. Um tempo atrás aconteceu algo na minha família: minha prima teve um filho nova e um dia, o primo bateu nela porque ela ia sair com o bebê. Em vez da família se impor e dizer que isso não podia, muita gente apoiou, achou bonito. Eu e minha mãe acolhemos ela em casa e incentivamos a denunciar. Agora a família está contra a gente”, relatou. Manifestantes entoaram palavras de ordem cobrando atendimento ininterrupto à rede de proteção e denunciando o enfraquecimento das políticas públicas. | Crédito: Jorge Leão Sobrevivente de violência doméstica, Daniele Schmals, 57 anos, e integrante do projeto Borboleta, do Tribunal de Justiça,destacou a importância simbólica e política da vigília realizada em frente ao Palácio Piratini. Para ela, a mobilização representa um grito coletivo por políticas públicas efetivas. “Esse ato, para nós, tem muito significado, porque, a partir do momento em que nós estamos aqui, na frente do Palácio do Governador, pedindo por políticas públicas, acho que está chegando o momento de as coisas começarem a funcionar. Porque, se todo homem resolver nos matar, como é que vai ser?”, questionou. Ela contou que sofreu violência doméstica dentro do próprio lar, tanto por parte do pai de seu filho, ainda antes da promulgação da Lei Maria da Penha, quanto pela mãe, e que essas situações a colocaram repetidas vezes em risco de morte. Schmals também relatou que viveu cerca de duas décadas sob violência. O ponto de virada em sua trajetória, segundo contou, ocorreu em 2016, quando passou a integrar o projeto Borboletas. Desde então, diz sentir-se pertencente ao grupo e comprometida em divulgar a iniciativa para que outras mulheres encontrem apoio. Para ela, a existência de coletivos e redes de acolhimento é essencial para que a lei seja efetivada. “Se as mulheres não são acolhidas, não são ouvidas, e não têm um espaço para refletir e se apoiar, como vão se empoderar? Como vão conseguir sair dessa situação?”, questionou. Schmals afirmou ainda que considera fundamental manter o debate público sobre a violência de gênero. Segundo ela, hoje seu filho publica conteúdos sobre feminicídio nas redes sociais, enquanto sua filha já foi vítima de violência doméstica, fatos que, para ela, reforçam a urgência de políticas estruturantes. “Cada mulher que morre, nós também morremos”, “Nós queremos é bem viver, não sobreviver” | Crédito: Jorge Leão Mudar a cultura machista “Misoginia mata”, “Nossas mortes não são estatísticas, são responsabilidade do Estado” e “O medo não pode ser rotina”. As participantes exigiram ainda educação para a prevenção da violência, conforme previsto na Lei Maria da Penha, além do cumprimento dos protocolos de proteção às vítimas e do respeito ao Estado laico. Entre os pedidos centrais estavam a ampliação da rede de atendimento, a destinação de recursos públicos e a criminalização da misoginia. “Menos discurso, mais rede de proteção”, diziam os manifestantes. Apesar do luto diante dos feminicídios, a mobilização seguirá, afirmaram em coro: “Estamos em luto, mas não vamos sair da luta pelas nossas vidas”. As palavras de ordem reforçaram que agressões psicológicas e patrimoniais também configuram violência e precisam ser reconhecidas pelo poder público. “A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer”, repetiam. “Cada mulher que morre, nós também morremos”, “Nós queremos é bem viver, não sobreviver” e “Até quando vão nos matar?”. “Seguiremos lutando por essas mulheres. Nós queremos vivas.” Ato prestou homenagem às vítimas | Crédito: Jorge Leão Enquanto essa matéria estava sendo fechada, mais um feminicídio foi registrado no estado. Marlei de Fátima Froelick, 57 anos, de Novo Barreiro, região norte do RS, foi morta a tiros na manhã desta quinta-feira (29) pelo companheiro. De acordo com GZH, a vítima registrou ocorrência policial e solicitou medidas protetivas de urgência à Justiça ainda no dia 12 de janeiro, mas o pedido foi inicialmente indeferido. Na quarta-feira (28), o Tribunal de Justiça concedeu, após recurso no Ministério Público, a medida, mas o agressor ainda não havia sido intimado até a manhã desta quinta. De acordo com a delegada Waleska Alvarenga, 74,7% das vítimas de feminicídio de 2025 não possuíam ocorrência policial prévia e 94,9% não tinham medida protetiva vigente à época do crime. As dez mulheres lembradas na vigília Ao final da manifestação foi feito um minuto de silêncio em memória das dez vítimas: Paula Gomes Gonhi, 44 anos, morta com golpes de faca dentro de casa em Santa Cruz do Sul, na Região dos Vales, na noite de segunda-feira (26). A Brigada Militar foi acionada pelo filho da vítima. Leila Raquel Camargo Feltrin, 24 anos, morta a facadas pelo companheiro na frente dos filhos, no domingo (25), em Tramandaí. Era mãe de duas meninas de dois e cinco anos. Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, morta a facadas pelo companheiro na frente dos filhos, no sábado (24), em Novo Hamburgo. Era mãe de duas meninas, uma de 13 anos e outra de nove meses. Mirella Santos da Silva, 15 anos, morta a facadas na casa do namorado, em Sapucaia do Sul, no dia 20. Uliana Teresinha Fagundes, 59 anos, morta a tiros pelo ex-companheiro após assinar o divórcio, em 20 de janeiro, em Muitos Capões, na Serra. Era mãe de duas filhas. Paula Gabriela Torres Pereira, 39 anos, esfaqueada e morta pelo ex-companheiro em uma parada de ônibus em Porto Alegre, no dia 19. Tinha três filhos, de cinco, 12 e 15 anos. Marinês Teresinha Schneider, 54 anos, morta a tiros pelo ex-companheiro dentro da própria casa, em Santa Rosa, no domingo (18). Segundo a imprensa, tinha medida protetiva, mas o Tribunal de Justiça informou que não houve solicitação de tornozeleira eletrônica. Josiane Natel Alves, 32 anos, assassinada com nove golpes de faca pelo ex-companheiro na frente da filha de 14 anos, em Porto Alegre, no domingo (18). Letícia Foster Rodrigues, 37 anos, encontrada sem vida em uma plantação de soja em 13 de janeiro, em Canguçu. Segundo a polícia, mantinha relacionamento com o suspeito havia cerca de sete anos e tinha um filho de quatro anos. Havia solicitado medidas protetivas anteriormente, descumpridas em três ocasiões. Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro em Guaíba, no dia 3. A motivação, segundo a investigação, está ligada à decisão de encerrar a relação. Esta é a segunda reportagem de uma série especial sobre o tema.
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