O 41º Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (Festivale) será realizado do dia 28 de julho ao dia 1º de agosto em Botumirim, no Alto Jequitinhonha, com programação gratuita e protagonismo feminino como fio condutor. O evento homenageia a atriz e diretora de teatro Cristina Gonçalves (Mostra de Teatro); a narradora, compositora, cantora e pesquisadora Déa Trancoso (Festival da Canção); a tecelã Marlice Machado (Feira de Artesanato); a mestra da Folia de Reis Jovença Pereira Costa (Mostra de Cultura Popular); e a poetisa Vilma Baracho, in memoriam (Noite Literária). As homenageadas são mulheres que tecem, cada uma à sua maneira, a trama da resistência cultural do Vale, inclusive contra a misoginia do meio artístico. Talvez tenha sido por isso que um dos organizadores do Festivale, Luciano Silveira, ao convidar Déa para ser homenageada, tenha afirmado: “Agora são elas”. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira”, já canta Déa Trancoso. E não é que existe um passarinho assim na serra de Botumirim? Cor-de-canela, mais clara no ventre, com os olhos e manchas azuis nas asas — uma das aves mais raras do planeta, que passou 75 anos julgada extinta até ser reencontrada em 2015. É a Rolinha do Planalto, Columbina cyanopis, passarinho pintadinho de verdade, tenor das árvores da Serra do Espinhaço. O Vale sempre foi esta efervescência de saberes — criações da terra que se aprendem com a mão, olhando e fazendo junto. Saberes que se fazem voz no canto de Déa Trancoso, mãos no tear de Marlice Machado, corpo no palco de Cristina Gonçalves, fé na folia de Jovença Pereira Costa, palavra na poesia de Vilma Baracho. Rolinha do Planalto – Foto: Wilson Santos É essa mesma resistência — teimosa, tecida no cotidiano — que faz o Festivale celebrar, ano a ano, a cultura popular do Vale do Jequitinhonha. O canto que venceu o festival Em 1995, na décima edição do Festivale, em Rubim, Déa Trancoso subiu ao palco como concorrente e venceu ao interpretar “Tuíra, Índia Guerreira”, de Si Amaral e Celi Márcio — levando o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete. Trinta e um anos depois, retorna ao festival como homenageada. A escolha daquela canção, hoje, ganha outra camada: Tuíra, liderança indígena que enfrentou a Eletronorte em 1989, era símbolo de resistência. Déa a cantou antes mesmo de reconhecer que carregava, ela própria, uma descendência indígena — uma sincronia que só o tempo despertou. Déa Trancoso – Foto: Iori Figueiró “Eu me reconheci Borum.” Foi assim que Déa Trancoso nomeou, durante o doutorado em educação (2020–2024), a retomada espiritual que viveu. “O doutoramento é uma grande análise expandida — quando você entra, ele te analisa”, diz. Esse autorreconhecimento, segundo ela, está ligado ao território que a formou: Almenara, o Vale e o Rio Jequitinhonha — que, para Exu Zambarado, é “o grande Xapiri”, o xamã que conecta mundos e seres diferentes. Nas palavras de Déa, “o Vale do Jequitinhonha é eminentemente indígena”. Foi nesse chão — o rio, o Vale, a cosmologia — que sua ancestralidade pôde emergir. O tempo dos relógios e o tempo da vida “Eu de fato não imaginei, nem nos meus melhores sonhos, que um dia eu seria homenageada no Festivale“, diz. Ela pensava que sua música não tivesse “o substrato do sertão”. “Tem, mas não é explícito. Meu texto conversa com o Oriente, conversa com espiritualidades que não são só caboclas”, diz. Ela se define como “uma narradora que usa a voz”. E completa: “Sempre me vi nesse lugar da narradora. A narradora acessa outras coisas que uma cantora não acessa. E responde a menos exigências. A narradora é narradora de sua própria voz, ou do encontro de vozes que ela costura.” Déa fala do Festivale como quem fala de um organismo vivo — e de um tempo que não é o dos relógios. “Nós estamos vivendo crises homéricas. De como ser, de como estar. O capitalismo é um sistema ultrainteligente. Quando ele cai aqui, ele se levanta ali. Ele tem o fascismo como aliado histórico milenar. O fascismo é tudo que é contra a vida”, afirma. É nesse entremeio que Déa situa o Festivale. Ao falar da nova direção da Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha (Fecaje), ela levanta a questão que considera central: como fazer o Festivale criar permanência — política, cultural, artística, formativa, de resistência? E reflete sem a presunção de saber a resposta: “Não sei se ele tá dando conta desse redemoinho. Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho e continuar fazendo resistência?”. Onde tudo começou Do falso milagre econômico da ditadura — o PIB cresceu, mas o salário mínimo perdeu metade do valor, a dívida externa quadruplicou, a desigualdade disparou — vieram políticas de ocupação para o Vale: uma delas, o eucalipto. Criado em 1967, o Projeto Rondon levou universitários a regiões isoladas do país. A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) instalou em Araçuaí um campus avançado vinculado ao programa, que centralizava as ações sociais da universidade no Vale. Mas foi nesse mesmo chão que a resistência brotou pela cultura. Na mesma época, chegou em Araçuaí um frade holandês, Frei Chico. Três anos depois, ouviu a cozinheira da paróquia cantar e disse: “Bonito, Filó!” — “Ah, é bobagem.” Daquela bobagem nasceu o Coral Trovadores do Vale (1970). Lira Marques entrou no coral e, com Frei Chico, percorreu o Vale com um gravador velho, registrando cantos que ninguém mais cantava. No mesmo período, o Campus Avançado do Vale do Jequitinhonha (CAVJ) — extensão da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) — aproximou a universidade das artesãs, apoiou a associação, organizou feiras. Frei Chico e o CAVJ não eram a mesma coisa, mas aconteciam no mesmo lugar e no mesmo tempo. Era o mesmo chão que fervia Foi nos anos 70 que Tadeu Martins, Aurélio Silby, Carlos Figueiredo e George Abner — dentro de um ônibus vindo de Belo Horizonte — pensaram em ter um jornal que desse voz e vez à região. Como disse Tadeu, “naquele período da ditadura militar, era preciso buscar formas de organização.” Nasceu o Jornal Geraes (1978). A partir da rede que o Geraes formou, organizaram o 1º Encontro de Compositores do Vale (3/11/1979, Itaobim). Para divulgá-lo, criaram um cartaz que parodiava os cartazes de “procurados” da ditadura — com as fotos dos músicos e o título “Procurados” em letras garrafais. O cartaz deu rebuliço: Globo, Alterosa e Band bateram na porta. Foram três entrevistas em TV e mais duas emissoras de rádio — Guarani, Rural e Inconfidência. Lotou o 1º Encontro de Compositores. Foi a base sólida para se criar o Festivale, que nasceu em julho de 1980, em Itaobim. Antes de ser celebrado, o Vale foi extraído — mineração de diamantes e ouro que partiu, monocultura do eucalipto que não partiu. Pesquisadores da UFMG documentam que a população “assistiu atônita à tomada de terras comunais e ao escasseamento crescente de água”; o eucalipto, até hoje, seca mananciais nas chapadas. Agora o discurso do “lítio verde” chega como nova promessa — o mesmo falso milagre, a mesma roupagem. O Vale reconhece o ciclo: a extração muda de nome, a prática é a mesma. É nesse cenário que o Festivale chega à 41ª edição. A pergunta de Déa nunca foi tão urgente: “Ele faz uma festa itinerante, mas e as outras ações? Como a gente pode estar fora da itinerância de julho fazendo resistência? Qual é a nossa resposta para essa região?” A linha que não se rompeu A Feira de Artesanato deste ano leva o nome de Marlice Machado, tecelã de Roça Grande, distrito de Berilo, onde a tradição têxtil é ancestral. Filha de Dona Leontina Amaral, que lhe ensinou o tear aos 9 anos, ela mantém o legado da mãe: a sobreposição de fios, o tear tradicional. Marlice fala de resistência com as palavras de quem ficou. “Hoje vejo o quanto fui persistência e resistente a esse ofício. Nenhum dos meus sete irmãos conseguiu resistir — procuraram outras fontes de renda. Mas outros parentes e vizinhos resistiram também como eu, e sou muito grata por eles terem escolhido seguir até aqui. Creio que não vai acabar nunca”, conta. Sobre suas viagens ao exterior, ela conta que deixou “as pessoas encantadas com o tamanho das peças confeccionadas em teares enormes e com técnicas de bordados diferentes que no mundo não tem.” Sobre ser homenageada no Festivale, ela revela: “Hoje não sou rica financeiramente, mas milionária de cultura ancestral. É uma gratidão imensa para mim e para todos da minha comunidade e principalmente para minha mãe, que não perdia nenhum Festivale.” “O que mais me recordo é o trabalho feito com meus irmãos na produção: descaroçar o algodão, tecer, acabamento e até mesmo levar pra cidade pra vender. O tear era um instrumento de trabalho que sempre foi pra nossa sobrevivência”, pontua Machado. Ela pensa adiante. “O que me move é saber que depois que eu não tiver aqui a nossa cultura da tecelagem vai perpetuar pra mais e mais. É muito gratificante ver outras que aprenderam comigo ocupar o mesmo espaço de vendas e gerar renda e poderem repassar o nosso ofício pra outras pessoas”. Tecelã, mestra, poetisa, atriz — a trama que não se rompe Na mesma linha de reconhecimento às guardiãs do Vale, a Mostra de Cultura Popular recebe o nome de Dona Jovença Pereira Costa, mestra da cultura popular e batuqueira. Além de pioneira, ela é considerada uma das principais guardiãs das tradições do Batuque e da Folia de Santos Reis de Comercinho. Aprendeu a manifestação com sua mãe, Maria de Aprígio, e dedicou a vida à preservação e transmissão desse saber. Ao lado da família e da comunidade, levou esta tradição para a zona urbana de Comercinho, em 2007. Sob sua liderança, o grupo passou a se apresentar em diversas comunidades e municípios do Vale, destacando-se pela preservação de cantigas, versos e da tradicional Dança da Garrafa. A trajetória de Dona Jovença foi fundamental para o reconhecimento do grupo como Patrimônio Cultural de Minas Gerais pelo IEPHA/MG, em 2017. A Noite Literária homenageia Vilma Baracho (in memoriam), poetisa natural de São Gonçalo de Rio das Pedras, distrito de Serro — sua poesia, enraizada na vida do Vale, permanece como legado. O Vale do Jequitinhonha encontrou nela uma guardiã da poesia. Com generosidade, ela acolheu vozes, uniu gerações de poetas e fez da palavra um gesto de amor. Os organizadores do Festivale declaram: “Quem semeia poesia nunca parte. Floresce em cada verso, em cada encontro e em cada coração que continua acreditando na força da arte. Vilma Baracho Vive.” Já a abertura da Mostra de Teatro celebra Cristina Gonçalves, atriz e diretora de arte de Medina e presidente da Associação dos Grupos de Teatro do Jequitinhonha (Agrutevaje). Ela destaca que sua formação artística foi profundamente marcada pelas oficinas do Festivale, onde teve acesso a cursos que, segundo ela, não teria condições de realizar fora dali. Ao receber a homenagem da Fecaje, Gonçalves diz ter ficado “muito feliz, lisonjeada demais da conta”, lembrando que sua relação com o teatro e com o grupo Ícaros do Vale — hoje dirigido por Luciano Silveira — começou ainda na juventude, quando viu pela primeira vez uma cena na rua ser demarcada com fubá e decidiu que aquela seria sua vida. Para ela, aceitar estar no cartaz ao lado de mulheres como Déia Trancoso e Jovença não é sobre ego, mas sobre representar tantas outras trabalhadoras da cultura que seguem invisibilizadas, atacadas e silenciadas. Mesmo enfrentando críticas, machismo e desigualdades, Gonçalves afirma que continua lutando pela cultura do Vale, criando projetos, atuando em ONGs e defendendo que as homenagens sejam feitas em vida. A homenagem, diz, simboliza não apenas sua trajetória, mas a resistência coletiva das mulheres que sustentam o teatro e a cultura popular do Jequitinhonha. Saberes e Fé O Encontro de Mestres do Jequitinhonha, que nasceu em edições anteriores em parceria com a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), por meio do Programa Casa de Saberes e da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proecx), segue na programação de 2026 como espaço dedicado à troca entre mestras, mestres e os encantos da cultura popular do território. A Bênção das Águas, que será realizada às margens do Rio do Peixe, reúne o Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de Bocaiúva; o Terreiro São Rafael, de Medina; os Tamborzeiros de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Virgem da Lapa; e o Congado de Nossa Senhora da Conceição — fé, ancestralidade e sincretismo encontrando o rio. A cidade que abriu as portas Município de Botumirim – Foto: Wilson Santos O secretário de Turismo e Cultura, Wilson Santos, conta: “Botumirim recebeu com grande alegria a notícia de que foi escolhida para sediar o 41º Festivale. É uma conquista que fortalece a cultura, valoriza nossas tradições e reafirma a importância do município no cenário cultural do Vale.” A cidade se preparou. Botumirim dispõe de cerca de 320 leitos em pousadas e hotéis, além de 260 leitos em hospedagem domiciliar — famílias que abriram as portas — com potencial de chegar a 500 leitos, somados às escolas e à área de camping. O município qualificou empreendedores locais com cursos de gastronomia, ornamentou a cidade e organizou os espaços de oficina e apresentação. Cachoeira do Bananal em Botumirim – Foto: Wilson Santos O palco principal será montado na Praça João Nassau, com banheiros químicos em vários pontos e base do SAMU e UBS com atendimento 24h. “Estamos articulando com pousadas e hotéis a melhor forma de acomodar nossos visitantes”, diz Wilson. “A população abraçou a ideia e muitas famílias disponibilizaram suas casas.” Festival da Canção A culinária é patrimônio: frango caipira, farofa de andu com torresmo, farofa de carne-seca socada no pilão, engrossado de milho verde, arroz com pequi, requeijão quente servido com rapadura ou farinha de mandioca. Sem falar nas quitandas mineiras — Mané Pelado, roscas, biscoitos — e nos lanches de rua: pão com pernil, pastel, tapioca, esfirra. As comunidades estarão presentes com Folia de Reis, Terço Cantado, Cantigas de Roda e artesanato. Para a abertura do Festival da Canção, Déa já preparou o repertório. “Então meu show passeia um pouco pelas minhas canções autorais e faz grandes homenagens a compositores do Vale do Jequitinhonha, que foram importantes para mim”, adianta. Entre elas, “Arreuni”, de Chico Maranhão, imortalizada na voz de Doroty Marques & Dércio Marques. A programação musical reúne Saulo Laranjeira, Titane, Novos Trovadores do Jequitinhonha, Banda Congadar, Bete Antunes, Coral Araras Grandes, Projeto Terceira Margem, Bruno Mark, A Outra Banda da Lua, Banda Xumbim com Rapadura, Olga Lívia, Coral Trovadores do Vale, Vinicius Lúcio, Coral Flor da Terra, Coral Água Branca — e Déa, que canta na abertura: “Kararaó”, “Pelo Chão que é Seu”, de Eustáquio Sena e “Canção da Lua Nova”, de Rubinho do Vale. Em algum lugar da serra, a Rolinha canta também. Cor-de-canela, olhos azuis, manchas nas asas. Ela resiste na serra. Como o povo do Vale resiste nos terreiros, nos teares, nas folias, nas vozes. “Passarinho pintadinho, o tenor da laranjeira…” Confira mais Informações: @fecajedojequitinhonhaoficial Acesso a Botumirim: o acesso principal é rodoviário — BR-251 até a LMG-655 (Rodovia Miguel Pereira da Silva). A balsa que atravessa o Lago de Irapé, ligando Botumirim a Leme do Prado, é caminho para quem vem de cidades da região.
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