A Argentina renovou, nesta quinta-feira (9), o hábito de divergir de temas sensíveis à agenda ideológica do ultraliberal Javier Milei em fóruns internacionais. Agora, foi a vez de discordar de um trecho relacionado à questão racial na declaração da 9ª Reunião Ministerial de Zopacas (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul). O grupo, criado em 1986, reúne países da região do Atlântico Sul com o objetivo de promover a cooperação e o intercâmbio militar entre Brasil, Uruguai e Argentina com nações da costa oeste da África, como Nigéria, Angola e África do Sul. Adormecido por dez anos, o fórum foi reativado em 2023 em meio à ofensiva diplomática do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a gestão de Jair Bolsonaro (2018-2022). Neste ano, a Reunião Ministerial do grupo voltou ao Rio de Janeiro, onde ocorreu a primeira edição do encontro, em 1988. Entre os pontos acordados ao fim da reunião estão o de manter a região livre da guerra, combater a pirataria e “cooperar na tarefa essencial de enfrentar as persistentes mazelas decorrentes da escravidão” —este último, rejeitado por Buenos Aires. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo “A República Argentina reafirma seu compromisso com a luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e intolerâncias correlatas, assim como com a promoção da igualdade e da dignidade humana de todos os seres humanos”, afirmou o país em uma nota de rodapé. “Nesse sentido, dissocia-se das referências a certas iniciativas e documentos mencionados no parágrafo 22, que não refletem necessariamente entendimentos atuais ou compromissos universalmente assumidos”, completou. O artigo em questão reconhece o “peso histórico da rota transatlântica no tráfico de pessoas escravizadas”, e convoca as nações do grupo a, além de cooperar no combate às consequências da escravidão, “ampliar os esforços de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial”, citando iniciativas multilaterais relacionadas ao tema —incluindo a resolução da Assembleia Geral da ONU que reconheceu a escravidão como o mais grave crime contra a humanidade. Na votação, no final de março, 123 dos países representados aprovaram a declaração, incluindo o Brasil, enquanto 52 se abstiveram e 3 rejeitaram o texto: Estados Unidos, Israel e Argentina. A prática de colocar uma nota de rodapé em documentos do tipo não é inédita sob a Argentina de Milei. Na cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) do ano passado, a declaração final, que exige consenso de seus 33 países-membros, foi divulgada com trecho em que se lia: “Esta declaração foi contestada pelas delegações de Argentina, Nicarágua e Paraguai por diferentes razões que respeitamos e reconhecemos”. Na ocasião, o documento rechaçou a imposição de medidas “restritivas ao comércio internacional”, em uma referência ao tarifaço do presidente Donald Trump, um aliado de Milei, e afirmou que uma das prioridades da Colômbia, que assumiria a Presidência do grupo, deveria ser a igualdade de gênero —tema ao qual o ultraliberal tem alergia. Ao fim de G20, por exemplo, em novembro de 2024, a Argentina resistiu inicialmente a um trecho da declaração final da cúpula que reafirmava o “compromisso de acabar com a violência de gênero, incluindo a violência sexual, e de combater a misoginia online e offline”. Por fim, porém, recuou. Antes disso, em julho do mesmo ano, o veto de Buenos Aires a temas como gênero e a Agenda 2030, o plano de sustentabilidade global da ONU, impediram a redação da declaração final do Mercosul com seus Estados associados, um dos documentos normalmente divulgados ao fim da cúpula do bloco.
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