Podemos esperar mais drama, e não surpresas, quando o presidente Lula discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima terça-feira (22). O americano Donald Trump deve, mais uma vez, partir para o ataque contra a instituição anfitriã que tanto contribuiu para consolidar o poder dos Estados Unidos no pós-guerra e ainda reflete a influência desproporcional dos países que emergiram vitoriosos do conflito. Lula deve salpicar sua fala com a palavra soberania e defender a reforma do Conselho de Segurança da ONU, composto de EUA, China, Rússia, França e Reino Unido. Os três mais poderosos membros do Conselho —EUA, China e Rússia— estão entre os maiores caloteiros da instituição, embora o governo americano tenha enviado um cheque de US $725 milhões nesta quarta (16), reduzindo sua dívida para US$ 1,31 bilhão. Cortes de despesas não resolveram a crise financeira da ONU, mas é difícil precificar a crise de legitimidade do único organismo global de cooperação em guerra e paz. Fundada sobre o choque com os horrores da 2ª Guerra Mundial, a ONU atravessa 2026 impotente diante dos conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio e no Sudão. Sucessivos governos americanos não se abstiveram de brandir o poder de veto, aliado ao peso econômico e militar do país, mas não atacavam a autenticidade dos princípios da ordem internacional que inspiraram a criação da ONU. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Em fevereiro de 2003, testemunhei a chegada do general Colin Powell, então secretário de Estado de George W. Bush, para fazer a histórica apresentação ao Conselho de Segurança, em que dizia ter provas de que o Iraque estava fabricando armas de destruição em massa, o argumento pela invasão do país, seis semanas depois. Rússia, China e França não se convenceram, mas, nos corredores, era palpável o senso de inevitabilidade da guerra. Powell morreu envergonhado de ter usado, num fórum global, o que chamou de provas falsas fornecidas por órgãos de inteligência. Mesmo o ex-presidente Joe Biden, um democrata à esquerda de seus antecessores, usou o poder de veto e blindou Israel durante a invasão de Gaza, bloqueando sucessivas propostas de cessar-fogo, e o mundo assistiu impotente às atrocidades contra civis palestinos. O Partido Republicano que elegeu e reelegeu Trump trabalhou metodicamente para retirar apoio e financiamento a organismos como a Organização Mundial de Saúde e a Unesco em nome de uma vaga agenda antiglobalista que se estende também à microgerência, como insistir em banir a palavra “diversidade” de documentos, ações que nada têm a ver com políticas globais. O poderoso vice-chefe de gabinete da Casa Branca Stephen Miller, que um ex-assessor militar de Trump apelidou de Rasputin, definiu como o chefe vê o papel dos EUA no mundo. Questionado na CNN logo após a invasão da Venezuela, Miller disse que podemos falar à vontade sobre formalidades, mas o mundo real “é governado pela coerção.” Ao abrir mão da influência sobre a manutenção da estabilidade global, o trumpismo ignora o quanto se beneficiou —a baixo custo— de seu poder na ONU e dá sinais de distância do público. Em julho passado, o Instituto Gallup registrou que apenas 27% dos americanos expressam confiança nas instituições do país como a Presidência e a Suprema Corte. E a imagem da ONU? O Pew Research Center apurou, em agosto, que 54% dos adultos nos EUA confiam na organização. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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