Uma cena cada vez mais comum no Brasil: o adolescente chega em casa com um pote de whey protein ou creatina, que viu no perfil de algum influenciador digital, quis experimentar e comprou sem perguntar pra ninguém. E os pais, muitas vezes, nem ficam sabendo. Por conta desse aumento do consumo indiscriminado de suplementos proteicos de whey protein e creatina entre crianças e adolescentes, a Sociedade Brasileira de Pediatria emitiu uma nota de alerta sobre as implicações clínicas e nutricionais para a saúde desse público. O problema é que, na maioria dos casos, esses suplementos não são necessários para a dieta dessa faixa etária. Uma criança saudável obtém toda a proteína de que precisa pela alimentação comum, o arroz com feijão e uma carne, por exemplo. A suplementação, sem indicação médica, pode fazer mais mal do que bem. É o que explica a pediatra Monica Moretzsohn, do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Criança saudável, falando especificamente em relação à proteína, ela consegue adquirir o que ela precisa. Para cada idade tem uma ingestão recomendada de nutrientes. A criança consegue alcançar muito facilmente essa meta de proteína com alimentos de casa, alimentos habituais: leite, ovo, carne, queijo, iogurte, as fontes vegetais, o feijão, por exemplo. Então é mais fácil exceder essa recomendação do que faltar.” Além de desnecessário, o uso indiscriminado desses suplementos traz riscos concretos de sobrecarga renal e hepática, desequilíbrios metabólicos e, a longo prazo, uma relação disfuncional com a comida e com a própria imagem corporal, afirma Mônica. “As redes sociais são, infelizmente, mais redes de desinformação do que informação. Na verdade, a gente vê muita barbaridade sendo disseminada nessas redes.” Para Aline Goettert, nutricionista e diretora-executiva da Associação Brasileira de Fabricantes de Suplementos (BrasNutri), o maior risco está no consumo por conta própria — sem qualquer avaliação prévia. “No caso do adolescente, vai depender muito da necessidade desse complemento alimentar. Muitas vezes, ele acaba sendo indicado quando o adolescente tem uma prática esportiva intensa, ou se ele é muito seletivo na forma da alimentação. O ideal é que seja feito através da orientação nutricional.” A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já estabelece normas específicas por faixa etária para o setor de suplementos. Mas a orientação profissional continua sendo insubstituível. O recado para os pais é simples: antes de qualquer suplementação, uma consulta com o pediatra é fundamental. Não para proibir, mas para entender se existe uma necessidade real, como no caso de jovens atletas ou crianças com desnutrição. Na maioria das vezes, o que o filho precisa esta no prato de comida, não no pote de suplemento.
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