O Japão aumentou nos últimos anos seus investimentos militares, ampliando a compra de mísseis e drones e acelerando mudanças no setor de defesa que estão transformando a postura adotada pelo país desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de décadas sustentando uma política pacifista, Tóquio passou a desenvolver capacidade militar para atingir forças inimigas a longas distâncias e reduzir sua dependência dos Estados Unidos.
A mudança tem sido impulsionada principalmente pelo avanço militar da China na região do Indo-Pacífico e também pela ameaça representada pelos mísseis e pelo programa nuclear da Coreia do Norte, pela aproximação entre Pequim e Moscou e pelas lições deixadas pela guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Devido a esse cenário, o governo japonês passou a considerar que o modelo de segurança mantido durante grande parte do período pós-Segunda Guerra já não é mais suficiente. Esse modelo combinava forças militares limitadas principalmente à defesa do território japonês e deixava o país extremamente dependente dos americanos para responder a ameaças externas.
A transformação militar do Japão começou ainda antes do atual governo, mas ganhou novo impulso sob o comando da primeira-ministra conservadora Sanae Takaichi. Neste ano, seu governo pediu ao Parlamento, por meio do Ministério da Defesa, a liberação de US$ 55,6 bilhões (R$ 285 bilhões) para o próximo ano fiscal. Esse recurso será destinado para a compra de mais munições, mísseis guiados, drones, aeronaves de transporte e tecnologia militar autônoma.
O Ministério da Defesa descreve o ambiente de segurança ao redor do Japão como o mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A avaliação dentro do governo japonês é de que o país não precisa apenas estar preparado para impedir um possível ataque contra o seu território, mas também ter condições de sustentar um conflito que possa se prolongar.
A guerra na Ucrânia teve peso nessa conclusão. O confronto em curso no leste europeu mostrou a importância de manter grandes estoques de munição, capacidade de reposição de equipamentos, indústria militar funcionando durante a guerra e disponibilidade de armas como drones.
Ameaça da China contra Taiwan preocupa Tóquio
Nas últimas décadas, o regime comunista da China expandiu sua Marinha, sua força de mísseis e sua aeronáutica, bem como aumentou sua capacidade de atuação no espaço e no ambiente cibernético. Parte desse avanço ocorre justamente em áreas próximas ao território japonês e a rotas marítimas essenciais para o país.
Uma das maiores preocupações do Japão está nas ilhas do sudoeste do país. O arquipélago de Ryukyu, que inclui a região de Okinawa, avança em direção a Taiwan e ao Mar da China Oriental, duas das regiões mais sensíveis da disputa estratégica com Pequim. Tóquio avalia que um eventual ataque chinês contra Taiwan – ilha democrática que é reivindicada por Pequim – poderia colocar forças militares do regime chinês operando muito próximas do território japonês e até mesmo atingir rotas utilizadas pelo comércio do país. Também poderia envolver bases americanas instaladas na região.
A própria Takaichi afirmou em 2025 que uma ofensiva chinesa contra Taiwan poderia até mesmo justificar uma reação das Forças de Autodefesa japonesas, caso a situação colocasse em risco a soberania do Japão. Diante desse cenário, Tóquio vem instalando nas ilhas do sudoeste novos sensores, equipamentos de guerra eletrônica, sistemas de mísseis e sistemas de drones.
Em análise publicada em maio deste ano pelo Royal United Services Institute (RUSI), centro britânico de estudos de defesa, o pesquisador sênior de Segurança do Indo-Pacífico Philip Shetler-Jones avaliou que a expansão militar da China alterou o equilíbrio de forças na região em detrimento dos Estados Unidos, principal garantidor da segurança japonesa. Segundo ele, o Japão passou a considerar então necessário ampliar sua própria capacidade militar na região para ajudar a impedir um possível conflito e reduzir a dependência de Washington.
“Para ajudar a dissuadir uma guerra na qual seria arrastado, o Japão precisa ter capacidade para contribuir mais para a dissuasão coletiva, diversificar suas relações de aliança e ser mais autossuficiente”, escreveu o pesquisador.
Mudança na postura militar do Japão já ocorre há anos
A política militar do Japão foi construída sobre as limitações adotadas após a derrota do país na Segunda Guerra Mundial. A Constituição promulgada em 1947 estabeleceu, em seu Artigo 9, a renúncia à guerra como instrumento para resolver disputas internacionais. As Forças de Autodefesa do Japão só foram criadas em 1954.
Durante décadas, sucessivos governos sustentaram uma interpretação restritiva sobre o uso da força, enquanto os Estados Unidos assumiam pouco a pouco o papel central na proteção do Japão por meio da aliança bilateral. Esse entendimento, contudo, começou a ser flexibilizado durante o governo do então primeiro-ministro Shinzo Abe.
Em 2014, o segundo governo de Shinzo Abe reinterpretou as regras constitucionais do Japão e abriu caminho para que o país pudesse ajudar militarmente aliados em determinadas circunstâncias, inclusive quando o próprio território japonês não tivesse sido atacado diretamente. A mudança foi transformada em legislação no ano seguinte. O passo mais profundo, no entanto, ocorreu em 2022, quando o país, durante o governo do então primeiro-ministro Fumio Kishida, aprovou uma nova estratégia de segurança e reconheceu oficialmente a necessidade de possuir uma chamada “capacidade de contra-ataque”. A mudança foi impactante porque alterou a lógica que orientava a defesa japonesa.
Até então, grande parte da estrutura militar do país era voltada apenas a detectar e interceptar uma ameaça depois que ela fosse lançada contra o Japão. Com a nova doutrina, o país passou a admitir que, em determinadas circunstâncias, pode atingir instalações militares responsáveis por um ataque antes que novas ofensivas sejam realizadas. Masahiro Sakata, ex-chefe do Gabinete Legislativo do governo japonês, órgão responsável por questões jurídicas do Executivo, chegou a classificar essa transformação como “a morte do Artigo 9”, segundo a Associated Press.
Apesar das mudanças, o governo japonês ainda rejeita a interpretação de que tenha abandonado sua política defensiva. Tóquio afirma que a atual capacidade de contra-ataque tem como objetivo impedir agressões e elevar o custo de uma eventual ofensiva contra o país.
Japão está construindo um arsenal de longo alcance
Tóquio investe atualmente na compra de mísseis capazes de alcançar alvos a mais de mil quilômetros, armas que podem ser lançadas de submarinos, sistemas contra radares, drones, caças F-35 e novas tecnologias de comando militar. Entre os programas mais importantes está a modernização do míssil antinavio Type-12, desenvolvido no próprio Japão.
Novas versões dessa arma terão alcance muito superior ao modelo original e poderão ser utilizadas contra embarcações e outros alvos localizados longe da costa japonesa. Com isso, o Japão busca reforçar sua capacidade de dissuasão, elevando o custo militar de uma eventual ofensiva contra o país e ampliando seu poder de atingir bases, navios e outras estruturas envolvidas num ataque.
Pressão dos EUA por mais independência dos aliados acelerou mudança do Japão
A transformação japonesa ocorre ao mesmo tempo em que os Estados Unidos pressionam seus aliados a assumirem uma parcela maior dos gastos necessários para sua própria defesa. Desde seu retorno à Casa Branca, o presidente Donald Trump tem defendido investimentos militares mais elevados entre os parceiros de Washington tanto na Europa quanto na Ásia. Por isso o Japão já antecipou a meta de elevar os gastos militares do país para aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
A pressão dos EUA se soma a outra preocupação que tem sido discutida no próprio Japão: até que ponto Washington estaria disposto a assumir sozinho os custos de uma guerra de grandes proporções na Ásia.
Em análise publicada em agosto pelo think tank Council on Foreign Relations (CFR), o pesquisador sênior Joshua Kurlantzick, especialista em Sudeste Asiático e política externa dos Estados Unidos para a Ásia, avaliou que aliados de Washington na região, como Japão e Coreia do Sul, passaram a demonstrar dúvidas sobre a disposição dos americanos de defendê-los em caso de ataque pela China ou Coreia do Norte.
Segundo Kurlantzick, muitos desses países estão ampliando seus próprios investimentos militares “porque já não se sentem confiantes de que os Estados Unidos os defenderão se forem atacados”. Contudo, isso não significa que Tóquio e Washington estejam próximos de romper sua histórica parceria de defesa, uma vez que o Japão ainda preserva sua aliança com os EUA, que mantêm neste momento bases militares no país asiático.
Coreia do Norte e Rússia completam cenário de ameaças a Tóquio
Os sucessivos testes de mísseis da Coreia do Norte mostram que Pyongyang possui capacidade neste momento para ameaçar diretamente o território japonês. O regime norte-coreano também mantém um programa nuclear que aumenta o risco militar enfrentado pelo Japão.
A Rússia, por sua vez, tem presença militar no Extremo Oriente e ampliou sua aproximação estratégica tanto com a China quanto com Pyongyang. Em agosto, o ditador russo Vladimir Putin visitou a ilha de Iturup, uma das quatro ilhas administradas pela Rússia e reivindicadas por Tóquio. A viagem levou o governo japonês a apresentar um protesto formal contra Moscou.
Diante desse cenário, o Japão passou a tratar o reforço de suas capacidades militares como uma necessidade estratégica para responder a ameaças simultâneas em seu entorno e reduzir sua vulnerabilidade diante de uma eventual crise regional.
A invasão ordenada por Putin contra a Ucrânia em 2022 também teve impacto importante sobre essa nova visão japonesa de segurança. Para Tóquio, a guerra em curso no leste europeu, ainda sem prazo para o fim, mostrou que um conflito prolongado de grande escala entre países continua possível mesmo em regiões desenvolvidas e economicamente integradas.
A combinação desses fatores levou Tóquio a abandonar a ideia de que a estabilidade regional poderia ser considerada permanente.
Rearmamento também passa pelo fortalecimento da indústria militar
Durante décadas, restrições internas criadas pelo próprio governo limitaram fortemente as exportações de equipamentos militares produzidos pelo Japão. Essas barreiras agora vêm sendo desmontadas.
No atual programa de fortalecimento militar, o governo elevou de cerca de US$ 108 bilhões (R$ 553,92 bilhões) para US$ 272 bilhões (R$ 1,39 trilhão) o volume previsto de projetos contratados na área de defesa. Apenas no orçamento deste ano, cerca de US$ 600 milhões (R$ 3 bilhões) foram destinados ao fortalecimento da base industrial militar, incluindo investimentos para modernizar linhas de produção, proteger cadeias de fornecimento e facilitar a fabricação de equipamentos em maior escala.
Em abril deste ano, Japão e Austrália fecharam os contratos para o fornecimento das primeiras fragatas japonesas da classe Mogami à Marinha australiana. Tóquio também desenvolve neste momento, ao lado do Reino Unido e da Itália, um caça de nova geração dentro do Global Combat Air Programme (GCAP), projeto lançado em 2022 para criar uma nova plataforma de combate aéreo, com entrada em serviço prevista para 2035.
Tóquio também vem ampliando cooperação militar com países como Filipinas e Indonésia. À agência Reuters, Jeffrey Hornung, especialista em segurança japonesa do think tank RAND Corporation, afirmou que ampliar o mercado disponível para fabricantes japoneses pode ajudar o setor a ganhar escala e reduzir custos. “Ao expandir os mercados, eles esperam se beneficiar de economias de escala e dar novo fôlego à base industrial do Japão, especialmente às empresas menores”, afirmou.
O avanço da indústria de defesa do Japão acompanha a ampliação da cooperação do país com países europeus e membros da Otan, movimento que ocorre paralelamente à participação japonesa em projetos internacionais de armamentos, como o caça desenvolvido com Reino Unido e Itália.
Lance Gatling, diretor da Nexial Research, empresa de pesquisa e consultoria especializada em defesa e segurança, e ex-oficial de planejamento das forças americanas no Japão, afirmou ao jornal The Washington Times que essa aproximação com a Otan mostra que o Japão alcançou uma posição de potência capaz de reunir parceiros e projetar força além de suas fronteiras.


