O ditador russo Vladimir Putin estaria preparando uma nova escalada da guerra contra a Ucrânia que pode incluir o recrutamento de milhares de novos soldados e a intensificação de ataques híbridos contra países europeus aliados de Kiev, segundo informações de autoridades de inteligência ocidentais ouvidas pelo jornal britânico The Telegraph.
De acordo com a reportagem publicada nesta sexta-feira (18), serviços de inteligência detectaram preparativos administrativos que poderiam permitir ao Kremlin realizar uma espécie de “mobilização discreta” de soldados depois das eleições parlamentares russas deste fim de semana. “O que estamos vendo são preparativos administrativos para tornar isso possível, caso essa seja a decisão”, afirmou uma fonte de inteligência ao jornal.
A mobilização não estaria necessariamente nos moldes da convocação pública de 300 mil reservistas realizada por Moscou em 2022. Segundo o Telegraph, autoridades ocidentais avaliam que o Kremlin poderia recorrer a mecanismos menos visíveis para aumentar o efetivo das Forças Armadas, pressionando novos grupos a assinar contratos militares e ampliando gradualmente o número de soldados enviados à guerra.
A avaliação ocorre enquanto os russos votam entre esta sexta-feira e domingo (20) para renovar os 450 assentos da Duma, a Câmara baixa do Parlamento. Putin rejeitou neste mês a possibilidade de uma nova mobilização após o pleito e classificou as especulações como “absurdas”. Analistas e fontes de inteligência ocidentais, porém, afirmam que o resultado eleitoral poderia oferecer ao Kremlin maior espaço político para ampliar o esforço de guerra.
Autoridades de inteligência ouvidas pelo Telegraph acreditam que Moscou pode intensificar também nas próximas semanas ações híbridas contra países europeus que apoiam Kiev, incluindo sabotagens, ataques cibernéticos e operações contra infraestruturas estratégicas.
Polônia alerta para possível ataque em território da Otan
Nesta quinta-feira (17), o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, afirmou diante do Parlamento polonês que informações recebidas de serviços de inteligência da Otan, da Ucrânia e dos Estados Unidos apontam para o risco de ataques russos com drones ou mísseis contra países europeus que apoiam Kiev.
Segundo o primeiro-ministro, Moscou poderia tentar apresentar eventuais ataques como “acidentes” para criar dúvidas dentro da Otan sobre a aplicação do Artigo 5, que estabelece a defesa coletiva dos integrantes da aliança. Tusk afirmou existir um “risco real” de drones ou outros projéteis entrarem no território de um ou mais países do flanco oriental e provocarem destruição.
Depois de ataques russos realizados a cerca de dois quilômetros da fronteira polonesa no domingo (13), Tusk convocou uma reunião especial de segurança e afirmou que as semanas e meses seguintes seriam marcados por uma intensificação das operações russas.
“Infelizmente, não podemos excluir que essa escalada também atinja o território da Polônia”, afirmou. O governo colocou serviços de segurança em estado de prontidão reforçada e anunciou medidas adicionais para proteger as passagens da fronteira com a Ucrânia.
A preocupação aumentou após a Rússia passar a utilizar com maior frequência drones movidos a jato, capazes de voar mais rápido e em altitudes maiores do que modelos empregados anteriormente. Tusk afirmou que essas características tornam a interceptação mais difícil pelas defesas aéreas.
Suíça prepara defesa contra drones e mísseis de longo alcance
Nesta sexta-feira, o Conselho Federal da Suíça aprovou a Estratégia de Política de Segurança 2026, documento que cita expressamente a guerra da Rússia contra a Ucrânia e o crescimento das ameaças híbridas como fatores que deterioraram o ambiente de segurança europeu.
O plano estabelece como prioridades aumentar a capacidade de defesa do país, proteger infraestruturas críticas e preparar o Estado, a economia e a população para enfrentar ataques e outras situações de crise. A estratégia reúne dez objetivos e 46 medidas cuja implementação já começou.
O governo suíço ressalta que considera um ataque armado direto contra a Suíça improvável no futuro próximo, mas afirma que o país pode ser atingido por armas de longo alcance, como drones e mísseis balísticos. Por isso, Berna pretende melhorar sua capacidade de enfrentar ataques desse tipo e preparar a defesa em cooperação com outros países.
O documento também alerta para o aumento de operações de influência, espionagem, sabotagem e ataques cibernéticos na Europa.
Reino Unido diz que ameaça russa já ultrapassou fronteiras da Ucrânia
Em declaração apresentada à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Londres afirmou que a ameaça representada pela Rússia “se estende para além da Ucrânia” e citou o ataque com drone contra o aeroporto de Leipzig, na Alemanha, atribuído pelo governo alemão a Moscou.
Segundo o governo britânico, episódios envolvendo drones sobre aeroportos e instalações militares, incêndios criminosos e sabotagens registrados em diferentes países europeus apresentam características de uma campanha destinada a atingir a segurança do continente sem necessariamente ultrapassar, isoladamente, o limite que provocaria uma resposta militar convencional.
A Alemanha responsabilizou oficialmente o Estado russo pela tentativa de ataque contra Leipzig em agosto. O Reino Unido convocou posteriormente o representante diplomático russo em Londres e classificou o episódio como parte de um padrão de ações contra a segurança europeia. Moscou nega conduzir uma campanha de sabotagem no continente.
Nesta semana, a tensão chegou também ao Mar Báltico. A Dinamarca afirmou que uma fragata russa disparou sinalizadores contra um helicóptero militar dinamarquês que realizava uma missão de vigilância em águas internacionais. Moscou contestou a versão e acusou o helicóptero de executar manobras perigosas próximo ao navio.
A Otan, contudo, afirmou no fim de agosto que não identificava naquele momento uma ameaça iminente de um ataque militar direto da Rússia contra um de seus integrantes, embora reconhecesse a intensificação das atividades híbridas russas na Europa. O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, também disse não ver evidências de que Moscou esteja prestes a iniciar uma guerra convencional contra a aliança.
Alertas sobre possíveis ações russas se acumulam na Europa
Os alertas desta semana se somam a outras informações divulgadas nos últimos meses sobre possíveis operações russas contra países da Otan, sobretudo no flanco oriental da aliança.
Em agosto, autoridades e fontes de inteligência da região disseram à agência Reuters que Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia haviam reforçado a segurança de barragens, usinas, terminais de gás e outras infraestruturas estratégicas diante da possibilidade de uma operação russa de “bandeira falsa”. Uma avaliação de inteligência citada pela agência apontava que serviços militares e de segurança russos consideravam um ataque contra infraestrutura na própria Rússia, nos países Bálticos ou na Polônia utilizando drones de fabricação ucraniana, de forma a atribuir posteriormente a ação a Kiev. Moscou classificou os alertas como tentativas de alimentar o medo da Rússia.
Segundo uma das fontes ouvidas pela agência, uma operação desse tipo poderia ser executada poucos dias depois de eventual autorização da liderança russa. A principal preocupação dos países da região era que um episódio de autoria inicialmente incerta provocasse divergências dentro da Otan sobre a resposta adequada.
Nesta semana, o estado de alerta voltou a aumentar depois que um caça italiano a serviço da Otan derrubou sobre a Lituânia um drone russo do modelo Gerbera, que também pode transportar explosivos. O presidente lituano, Gitanas Nausėda, afirmou que a hipótese mais provável é que o aparelho tivesse como destino a Ucrânia e tenha saído da rota por interferência eletrônica, mas disse que provocações, sabotagens e operações de bandeira falsa continuam entre os cenários considerados pelo país.
Na França, o presidente Emmanuel Macron elevou o tom nesta sexta-feira. Depois de reunir líderes dos partidos políticos em Paris, afirmou que a ameaça híbrida russa contra a Europa e a França se intensificou nas últimas semanas e ordenou ao governo a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas contra ataques de drones e ações cibernéticas.
Macron citou como exemplo a tentativa de ataque com drone contra o aeroporto de Leipzig, na Alemanha, que Berlim atribuiu a Moscou, e afirmou que a natureza das ações russas contra interesses europeus está mudando. O presidente francês prometeu que novos ataques não ficarão sem resposta. A Rússia rejeita as acusações europeias de conduzir uma campanha de ataques híbridos e afirma que elas fazem parte de uma campanha antirrussa.
Em julho, a Lituânia aprovou um plano nacional detalhado para a evacuação da população em caso de ameaças militares ou civis, diante da tensão com a Rússia. O documento estabelece procedimentos para alertar moradores, organizar transportes, alojamento temporário e assistência às pessoas retiradas das áreas ameaçadas. O governo calcula que cerca de 75% da população conseguiria deixar essas regiões por meios próprios, enquanto as autoridades locais teriam de organizar a retirada dos demais.
Na Alemanha, as Forças Armadas e o sistema de saúde também vêm se preparando para um eventual conflito envolvendo a Otan e a Rússia. A Bundeswehr, força armada unificada da Alemanha, trabalha com um cenário de até mil feridos por dia e realizou neste ano exercícios para testar a transferência de militares feridos do flanco oriental da aliança para hospitais civis alemães.
Em Hamburgo, autoridades apresentaram em julho um plano específico para preparar os hospitais para três cenários: grandes ataques cibernéticos, acionamento da defesa coletiva da Otan e um ataque militar direto contra a Alemanha. No cenário de guerra envolvendo a aliança, cada hospital da cidade poderia precisar receber entre 30 e 50 pacientes em poucas horas. As autoridades estimam que seriam necessários mais de €130 milhões em investimentos para adaptar o sistema de saúde à situação.


