O presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, visitou Vladimir Putin nesta quarta-feira (15) em Moscou e disse que seu país irá manter todos os compromissos com a Rússia —ou seja, a manutenção do controle do Kremlin sobre duas bases militares estratégicas no país árabe. “Há relações bilaterais e interesses compartilhados que nos unem à Rússia, e nós respeitamos todos os acordos feitos”, disse o sírio, um egresso da rede terrorista Al Qaeda hoje saudado como estadista. A inédita visita marca uma reabertura ensaiada há tempos de aproximação entre o russo e o homem que derrubou um de seus principais aliados no Oriente Médio, o então ditador Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Assad está exilado na Rússia, nos arredores de Moscou, com sua família. Na semana passada, circularam boatos de que ele teria sido envenenado e tratado em um hospital da capital, o que não foi confirmado. Na parte fechada da reunião com Putin, a expectativa era de que Sharaa pedisse para que o ex-ditador, que governou por 24 anos e foi destronado em uma ofensiva relâmpago de radicais islâmicos liderados pelo hoje presidente, fosse entregue a Damasco para ser julgado por crimes de guerra. Segundo a reportagem ouviu de um observador próximo do Kremlin, não há chance de isso acontecer. A relação de Putin com Assad sempre foi próxima, e o pai de Bashar, Hafez, governou de 1971 a 2000 com apoio da antiga União Soviética e da Rússia, após o fim do império comunista. Deste relacionamento surgiram as unidades militares em questão, o porto de Tartus e a base aérea de Hmeimim, ambas na região da Latakia (noroeste sírio), onde a minoria alauita da qual os Assad eram expoentes é majoritária. O porto foi cedido aos russos em 1971 para operações no Mediterrâneo, enquanto Hmeimim foi incorporada em 2015, quando Putin salvou Assad de ser derrubado na guerra civil que assolava o país desde 2011, promovendo uma intervenção com forças aéreas e mercenários em coordenação com tropas do Irã e do Hezbollah libanês. Ambos os locais foram cedidos por 49 anos a Moscou, em um acordo assinado em 2017. O arranjo foi o zênite do poder de Moscou no Oriente Médio. Com o foco direcionado para a Guerra da Ucrânia, a partir de 2022, Putin viu sua influência evaporar na região. A reação de Israel ao ataque do Hamas em 2023, que levou ao desmantelamento da rede iraniana na região, completou o quadro de exposição de Assad. Apoiado pela Turquia, Sharaa tomou Damasco com pouco esforço. A Rússia correu para evacuar seus materiais militares mais valiosos, como sistemas antiaéreos S-400, por Tartus. Já houve 5.000 militares em Hmeimim, mas hoje a presença é estimada em poucas centenas. A situação política do Kremlin, que sempre foi incluído em debates sobre o futuro da região, ficou explícita nesta semana. Moscou não foi chamada para a cúpula promovida por Donald Trump com líderes árabes na segunda (13), na qual foi sacramentada a tentativa de consolidação da paz entre Israel e o Hamas. Para piorar, em abril a Rússia havia anunciado para esta quarta uma reunião entre Putin e os mesmos líderes árabes. Apenas Sharaa e o chefe da Liga Árabe, o egípcio Ahmed Aboul Gheit, confirmaram presença. O evento teve de ser cancelado, para constrangimento de Putin. A manutenção de um pé na costa mediterrânea é essencial para as forças de Putin, sem acessos diretos ao mar ocidental. Como a cabeça de Assad não parece estar à disposição, a contrapartida a Sharaa deve vir na forma de acordos energéticos e mesmo a estabilidade na região dominada por um grupo rival. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Putin elogiou as discutíveis eleições parlamentares do país, realizadas na semana passada sem a participação de grupos adversários, como os druzos e os curdos. “Apesar do fato de que a Síria está atualmente passando por momentos difíceis, estas [eleições parlamentares] fortalecerão os laços e as interações entre todas as forças políticas na Síria. Acredito que este seja seu grande sucesso”, disse.
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