Existe uma pergunta simples que revela para quem a cidade é construída: quem realmente consegue viver a cidade? Quem mora perto do trabalho, do lazer e dos serviços públicos? Quem consegue se deslocar sem perder horas em ônibus lotados? Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, a resposta é clara: quem vive na periferia paga mais caro — em dinheiro, tempo e qualidade de vida. A mobilidade urbana nunca foi apenas transporte. É acesso à cidade. Quando um trabalhador da Restinga, de Alvorada ou de Gravataí precisa pegar dois ou três ônibus para chegar ao emprego, não perde apenas parte do salário com a passagem. Perde tempo de descanso, de convivência familiar e de lazer. Perde tempo de vida. Por isso, decisões como a redução das gratuidades, o aumento da idade mínima para o passe livre e a retirada do benefício dos professores atingem diretamente milhares de porto-alegrenses. São medidas que dificultam o acesso à cidade para quem mais depende do transporte coletivo. Defender a tarifa zero não é utopia. É discutir dignidade. Cidades como Maricá e, mais recentemente, Canoas demonstram que existem alternativas ao modelo atual. Transporte público é um serviço essencial, como saúde e educação. Quando prevalece a lógica do lucro, os mais pobres são os primeiros prejudicados. A gestão municipal também optou por ampliar a vida útil da frota de ônibus. Na prática, isso significa veículos mais antigos circulando por mais tempo, com reflexos no conforto, na acessibilidade e na segurança. A periferia conhece essa realidade: superlotação, calor excessivo, atrasos, redução de linhas e ônibus quebrados. Outro problema é a falta de participação popular. Pouca gente lembra que Porto Alegre foi pioneira nesse debate. Em 1989, a Lei nº 6.427 criou a fiscalização comunitária do transporte coletivo, permitindo que representantes das comunidades acompanhassem horários, itinerários, lotação e qualidade do serviço. A proposta era simples: colocar a população para fiscalizar o sistema. Porto Alegre precisa recuperar essa vocação democrática. A cidade não pode continuar organizada para favorecer poucos enquanto milhares passam horas diárias em deslocamentos exaustivos. O direito à cidade começa quando as pessoas conseguem circular por ela com dignidade. *Brunno Mattos é secretário geral da União das Associações de Moradores de Porto Alegre (Uampa) **Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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