A volta da agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA) à Bolívia, depois de quase duas décadas de expulsão, é um dos sinais mais claros da inflexão política produzida pela vitória do direitista Rodrigo Paz do ano passado. Funcionários da DEA estão realizando um sobrevoo na região de produção de coca do Chapare para avaliar possíveis formas de cooperação com o novo governo na luta contra o narcotráfico. Também já foram iniciadas conversas com o atual presidente. A ideia é chegar a um acordo bilateral de combate ao narcotráfico. O ex-presidente Evo Morales havia expulsado a DEA de território boliviano em 2008. Quando a Folha o visitou, no Trópico de Cochabamba, pouco antes das eleições, o ex-mandatário nos mostrou as instalações abandonadas usadas pela entidade norte-americana. E dizia com orgulho: “Eu mandei todos embora. Aqui nós mesmos regulamentamos a produção de coca”. De fato, a coca é presente em toda a região. Pelas estradas e caminhos, é possível ver produtores recolhendo, fazendo o processo de secagem e embalagem desse produto que, ancestralmente, é consumido na Bolívia não apenas para a produção de cocaína. A coca é essencial para enfrentar os males da altitude. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Desde a atitude de Morales, a cooperação antidrogas com Washington permaneceu suspensa. O governo Paz restabeleceu vínculos com os EUA e passou a buscar apoio dos norte-americanos, após duas décadas de administrações da esquerda do MAS (Movimento ao Socialismo). A Bolívia é hoje o terceiro maior produtor mundial de cocaína, atrás de Colômbia e Peru, e possui cerca de 34 mil hectares de coca. Morales permanece acampado no Chapare e seus seguidores instalaram uma vigília permanente e se entrincheiraram com paus e pedras para impedir uma eventual detenção. O temor é que a polícia, com apoio da DEA, tente prendê-lo e envolvê-lo em processos por narcotráfico. O retorno da agência antidrogas também reavivou memórias do período em que sua atuação foi mais intensa no país, nos anos 1980 e 1990, durante a política de “guerra às drogas” promovida por Washington. Naquela época, a erradicação forçada de cultivos provocou confrontos no Chapare, deixando dezenas de mortos. A decisão do governo de Paz ocorre em meio a uma escalada da violência associada ao crime organizado. No plano político, soma-se outro fator de instabilidade: a ruptura aberta entre o presidente Rodrigo Paz e seu vice, Edmand Lara. Eleitos como uma chapa improvisada, os dois já se enfrentam desde a campanha. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Paz é herdeiro de uma linhagem tradicional do poder boliviano, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora e sobrinho-neto de Víctor Paz Estenssoro. Lara, ex-policial expulso da corporação, construiu sua popularidade com um discurso de combate à corrupção e à violência, dirigido às camadas populares e aos “esquecidos do sistema” —com isso, teria cooptado vários votos que iriam a Morales, caso este pudesse concorrer à eleição. O conflito também tem dimensão simbólica. Durante a campanha, Lara havia afirmado que a coca do Chapare seria respeitada e que a presença da DEA não era necessária. Agora, vê-se associado a um governo que aposta na ação dos EUA na retomada da cooperação antidrogas. O retorno da DEA e a cisão entre presidente e vice desenham um cenário de incerta reacomodação interna. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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