Candidatos ligados aos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), a ala socialista do Partido Democrata, conquistaram importantes vitórias durante as primárias da legenda para o Congresso dos Estados Unidos, vencendo inclusive deputados veteranos do partido.
O saldo das primárias democratas indica que os socialistas, embora ainda em pequeno número, estão a caminho de ampliar sua base no Congresso, que atualmente é composta pelas deputadas Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, que buscam a reeleição.
Pelo menos 21 candidatos ao Congresso que possuem vínculo com o DSA ou que receberam apoio oficial de algum de seus membros, núcleos locais ou estaduais vão disputar a eleição de novembro. Desse grupo, nove possuem ligação direta com a organização: oito disputam cadeiras na Câmara dos Deputados e uma, a candidata Angie Nixon, concorre a uma vaga no Senado. Os outros 12 receberam apoio ou recomendação de núcleos da organização, embora não façam parte do grupo de candidatos diretamente ligados à ala socialista.
O avanço do DSA ocorreu principalmente em distritos urbanos onde os democratas já possuem ampla vantagem sobre os republicanos, o que pode garantir as cadeiras em novembro.
Membros formalmente apoiados pelo DSA venceram congressistas experientes do Partido Democrata. Melat Kiros venceu Diana DeGette no Colorado; Darializa Avila Chevalier venceu Adriano Espaillat em Nova York e Donavan McKinney derrotou Shri Thanedar em Michigan.
Os três vencedores estão agora em posição privilegiada para chegar à Câmara na eleição geral de novembro, o que por si só já ampliaria o número de socialistas na Casa. Junta-se a esse número ainda a socialista Claire Valdez, do 7º Distrito de Nova York, e o socialista Chris Rabb, do 3º Distrito da Pensilvânia. Completa o grupo de oito candidatos à Câmara Mai Vang, vereadora de Sacramento que conta com o apoio formal do DSA e avançou para a eleição de novembro pelo 7º Distrito da Califórnia, além das duas já citadas que tentarão a reeleição.
O desempenho representa um avanço importante em relação às primárias de 2024. Naquele ciclo, quatro nomes ligados ao DSA disputaram a permanência na Câmara, mas Jamaal Bowman e Cori Bush perderam a indicação democrata e apenas Ocasio-Cortez e Tlaib chegaram à eleição geral e foram vitoriosas. Embora ainda pouco representativo, o número de candidatos formalmente ligados à organização que avançaram para a eleição de novembro na Câmara saltou de dois para oito neste ano.
Jovem socialista tira da disputa deputada democrata que estava há três décadas na Câmara
O caso mais simbólico envolvendo uma vitória do DSA na primária democrata ocorreu no 1º Distrito do Colorado, que engloba Denver. A democrata Diana DeGette, de 69 anos, representava a região na Câmara dos Deputados dos EUA desde 1997 e estava em seu 15º mandato. A socialista Kiros, de 29 anos, entrou na disputa pela vaga na Câmara se apresentando como uma alternativa à estrutura tradicional do Partido Democrata. Ela recebeu o apoio do senador progressista Bernie Sanders e tem entre suas pautas a defesa de um embargo americano de armas a Israel.
A diferença de idade e de tempo na política transformou a corrida entre Kiros e DeGette pela vaga democrata em um dos principais confrontos geracionais das primárias da legenda. A imprensa internacional classificou a vitória de Kiros como uma mostra da força e do crescimento da ala socialista dentro do Partido Democrata. O distrito é conhecido por seu perfil fortemente democrata, o que indica que ela tem boas chances de conquistar uma vaga na Câmara.
Nova York vira principal vitrine da expansão socialista
Em Nova York, o avanço do DSA apareceu em várias disputas e também expôs a crescente influência eleitoral do grupo, que tem como principal figura local o prefeito Zohran Mamdani.
No 13º Distrito, a socialista Avila Chevalier derrotou o deputado democrata Adriano Espaillat, progressista que buscava seu sexto mandato. Integrante do DSA e líder sindical, Chevalier recebeu o apoio de Mamdani e venceu a primária por 49,4% a 45,9%.
No 7º Distrito, Claire Valdez venceu a disputa pela sucessão da deputada Nydia Velázquez, que se aposentou após mais de três décadas na Câmara. Apoiada pelo DSA e por Mamdani, Valdez superou Antonio Reynoso, candidato apoiado por Velázquez, e conquistou a indicação democrata para a eleição de novembro.
Já no 10º Distrito, Brad Lander derrotou Dan Goldman por 64,1% a 35,9%. Ex-integrante do DSA, Lander deixou a organização em 2023, após divergências sobre sua reação aos ataques do Hamas contra Israel, mas recebeu o apoio de Mamdani durante a campanha.
Por fim, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez venceu novamente a primária democrata pelo 14º Distrito de Nova York, com cerca de 87% dos votos.
DSA avança na Califórnia, em Michigan e na Filadélfia
Na Califórnia, a vereadora Mai Vang terminou em primeiro lugar na primária aberta do 7º Distrito, com 31,2% dos votos. A deputada democrata Doris Matsui, que está no Congresso desde 2005, ficou em segundo, com 29,1%. O sistema eleitoral do estado coloca todos os candidatos na mesma primária, independentemente do partido, e leva os dois mais votados para a eleição geral. Com isso, Vang e Matsui, ambas democratas, voltarão a se enfrentar em novembro para decidir quem vai ficar com a cadeira do distrito na Câmara. Os dois candidatos republicanos que participaram da primária ficaram em terceiro e quarto lugares.
Em Detroit (Michigan), a derrota do deputado democrata Shri Thanedar teve uma particularidade: ele próprio havia sido integrante do DSA, mas rompeu com a organização em 2023, após os ataques terroristas do Hamas contra Israel. Três anos depois, ele acabou derrotado na primária democrata por Donavan McKinney, candidato apoiado pela mesma organização da qual havia se desligado. McKinney, deputado estadual e ex-líder sindical, recebeu 51,9% dos votos, contra 48,1% de Thanedar, que, dois anos atrás, havia vencido a eleição geral no mesmo distrito com 68,6% dos votos.
Na Filadélfia, um dos maiores redutos democratas dos EUA, Chris Rabb venceu a primária do partido para disputar uma vaga na Câmara. Deputado estadual e autodeclarado “socialista democrático”, ele recebeu o apoio do DSA local, da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, do Working Families Party e de outras lideranças progressistas. Como nenhum republicano estará na cédula em novembro, Rabb não terá adversário do Partido Republicano na eleição geral.
Integrante do DSA conquista indicação democrata para o Senado na Flórida
Na Flórida, uma integrante do DSA conseguiu levar o movimento para além das disputas distritais pela Câmara. Angie Nixon venceu uma primária realizada em todo o estado e conquistou a indicação democrata para o Senado dos Estados Unidos.
A deputada estadual derrotou o tenente-coronel reformado Alexander Vindman, que ganhou projeção nacional durante o processo de impeachment de Donald Trump, no primeiro mandato do republicano. Nixon recebeu 56,1%, contra 43,9% de Vindman.
Em novembro, ela enfrentará a senadora republicana Ashley Moody pela vaga no Senado dos EUA. A eleição definirá quem cumprirá os dois últimos anos do mandato para o qual Marco Rubio foi eleito em 2022. Rubio deixou o Senado em janeiro de 2025 para assumir o Departamento de Estado, e Moody, favorita para a vaga, foi nomeada pelo governador Ron DeSantis para ocupar temporariamente a cadeira.
Socialistas também apoiaram candidatos progressistas que venceram primárias
Além das figuras formalmente ligadas ao DSA, a ala socialista do Partido Democrata também apoiou outros nomes progressistas que conquistaram vitórias em disputas durante as primárias da legenda.
O principal caso foi o de Abdul El-Sayed, que não integra formalmente o DSA e afirma não ser socialista, mas recebeu apoio de Bernie Sanders, Ocasio-Cortez, Mamdani e Rashida Tlaib na disputa pelo Senado dos Estados Unidos em Michigan.
El-Sayed derrotou na disputa a deputada democrata Haley Stevens por uma margem de aproximadamente um ponto percentual e enfrentará o republicano Mike Rogers na disputa pela cadeira na Casa Alta americana em novembro. Integrantes do DSA de Michigan se mobilizaram em favor de sua candidatura, embora a organização não o tenha apoiado formalmente.
Outro caso foi o de Ilhan Omar, integrante do grupo de deputados democratas progressistas conhecido como “Squad”. Omar não é membro oficial do DSA, mas mantém há anos uma relação próxima com a organização, que já declarou publicamente apoio político à congressista. Neste ano, ela venceu com mais de 80% dos votos a primária democrata pelo 5º Distrito de Minnesota e buscará mais um mandato na Câmara em novembro.
Outra integrante do “Squad”, Summer Lee, também garantiu a indicação democrata para tentar um novo mandato pelo 12º Distrito da Pensilvânia. Lee derrotou Will Parker na primária e recebeu durante a campanha o apoio de Bernie Sanders, Ocasio-Cortez, Tlaib e da própria Omar. Antes de chegar ao Congresso, Lee já havia recebido apoio formal do DSA de Pittsburgh quando concorreu à Câmara estadual da Pensilvânia, em 2018.
Em Massachusetts, o senador Ed Markey, que obteve apoio de figuras da ala progressista, derrotou o deputado democrata Seth Moulton na primária e buscará mais um mandato no Senado. Seu adversário será o republicano John Deaton.
Também houve vitórias de outros candidatos progressistas democratas menos conhecidos nacionalmente, que não integram a ala socialista, mas foram apoiados por figuras desse grupo. Na Califórnia, Randy Villegas recebeu o apoio de Sanders e Ocasio-Cortez e garantiu a vaga na eleição para a Câmara pelo 22º Distrito. Em novembro, ele enfrentará o republicano David Valadao. Sam Forstag, sindicalista também apoiado por Sanders e Ocasio-Cortez, conquistou a indicação democrata para o 1º Distrito de Montana.
Em Nova Jersey, Adam Hamawy venceu uma primária com 13 candidatos pela cadeira aberta do 12º Distrito da Câmara depois de receber apoio de Sanders, Ocasio-Cortez, Tlaib e outras figuras da ala socialista democrata.
Movimento também avançou em disputas estaduais e municipais
O desempenho de candidatos ligados ao DSA não ficou restrito apenas ao Congresso. A organização também conseguiu ampliar sua presença em disputas estaduais e municipais.
Nas primárias de 4 de agosto, seis candidatos apoiados pelo DSA venceram disputas para legislativos estaduais em Michigan, Missouri, Kansas e Washington. Entre eles estão os progressistas Dylan Wegela e Chris Gilmer-Hill, em Michigan; Jimmy Lappe, no Missouri; Isaiah Harris, no Kansas; e Shaun Scott e Jaelynn Scott, em Washington.
A ala também vai disputar pelo Partido Democrata as prefeituras de algumas das principais cidades americanas. O caso de maior peso ocorreu em Washington, onde a vereadora Janeese Lewis George, integrante do DSA, venceu em junho a primária contra a prefeita da capital dos Estados Unidos.
Em novembro, ela enfrentará Robert L. Gross, candidato do Partido Verde, e a independente Rhonda Hamilton. Não haverá candidato republicano na disputa. Como Washington é amplamente dominada pelos democratas, Lewis George chega à eleição geral em posição favorável para assumir o comando da cidade.
Em Providence, capital de Rhode Island, o deputado estadual David Morales, integrante do DSA, derrotou o prefeito Brett Smiley na primária democrata. Morales recebeu 53,6% dos votos, contra 46,4% de Smiley. Em novembro, ele enfrentará o republicano Dave Talan na eleição para prefeito.
Em Los Angeles, na Califórnia, a vereadora Nithya Raman, integrante do DSA, avançou para a eleição de novembro e enfrentará a atual prefeita democrata Karen Bass.
Em Louisville, no Kentucky, a vereadora Shameka Parrish-Wright, apoiada pelo DSA local, ficou em segundo lugar nas primárias municipais, realizadas sem divisão por partido, e avançou para a eleição de novembro. Ela enfrentará o atual prefeito, o democrata Craig Greenberg, que terminou em primeiro.


