Com os discursos de líderes de governo e Estado na sua Assembleia Geral em Nova York, a ONU sempre fica sob holofotes mais intensos em setembro – e essas luzes vêm expondo que a organização enfrenta sua maior crise financeira desde sua criação, em 1945.
A principal explicação para essa crise são os cortes de financiamento que o presidente americano, Donald Trump, impôs às Nações Unidas e suas agências desde que voltou à Casa Branca, no início de 2025.
Os Estados Unidos se retiraram de vários órgãos da ONU, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Conselho de Direitos Humanos e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, na sigla em inglês), além de ter mantido o bloqueio de recursos para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA) e de ter cortado verbas para outros, como o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa).
Os americanos são os maiores contribuintes ao caixa da ONU, respondendo por 22% do orçamento regular da organização e 26,15% do orçamento das suas operações de paz, de acordo com um relatório recente do Serviço de Pesquisa do Congresso americano.
Com os cortes que a gestão Trump e outros governos promoveram, a organização enfrenta a maior crise financeira da sua história.
Segundo o relatório, o orçamento regular da ONU para 2026 é de US$ 3,45 bilhões, uma redução de 15% em relação a 2025, o que incluiu um corte de 19% no quadro de funcionários, com a extinção de 2,9 mil cargos e mais de mil outros desligamentos em processo de conclusão.
Este mês, houve um alívio, com o governo Trump pagando US$ 725 milhões para o orçamento regular das Nações Unidas e US$ 102 milhões para operações de manutenção da paz, mas a ONU afirmou que Washington ainda deve US$ 1,312 bilhão ao orçamento regular.
Segundo a agência Reuters, uma autoridade dos EUA afirmou que quaisquer pagamentos estariam condicionados à continuidade de reformas na ONU, que Trump acusa de ser burocrática, ineficiente e ideológica.
Os cortes promovidos pelos EUA e outros países também afetam as agências da ONU. No final de agosto, a Reuters publicou uma reportagem apontando que a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) reduziu seu orçamento em 16% e cortou cerca de 3,5 mil postos de trabalho no seu quadro oficial de funcionários. O orçamento planejado para a Acnur em 2027 é de US$ 7,14 bilhões, o menor em dez anos. O orçamento da agência em 2025 foi de US$ 10,6 bilhões.
Em outubro do ano passado, ao anunciar o orçamento regular da ONU para 2026, o secretário-geral da organização, António Guterres, disse que as Nações Unidas enfrentavam uma “corrida rumo à falência”.
Trump diz que cortes visam tornar Nações Unidas mais eficientes
Em seu discurso na Assembleia Geral, na terça-feira (22), Trump afirmou que um dos objetivos desses cortes é tornar a ONU mais eficiente.
“Liderados pelo embaixador Michael Waltz aqui nas Nações Unidas, trabalhamos com muitos países nesta sala para implementar as reformas mais abrangentes da história da ONU. Cortamos o orçamento da ONU pela primeira vez, reduzindo-o em 15% em 2026 e eliminando mais de 4 mil cargos da burocracia da ONU”, disse o presidente americano.
“As Nações Unidas têm um grande, grande potencial — eu venho dizendo isso há muitos anos. Mas é preciso parar de impor a agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu”, disse o presidente americano na terça-feira.
“É profundamente irônico que as Nações Unidas tenham uma instituição inteira — a Unesco, um grupo de pessoas e países — dedicada à proteção do patrimônio cultural. No entanto, com sua promoção incessante da imigração em massa, esses globalistas estão destruindo ativamente as maiores culturas e o patrimônio mais extraordinário de toda a história”, disse Trump no seu discurso.
“Não existe um direito humano à imigração ilegal, mas existe o direito de permanecer uma nação soberana. E nós queremos permanecer uma nação soberana, e vocês também deveriam”, afirmou aos representantes de outros países durante a Assembleia Geral.
Conselho de Segurança volta a ficar congelado, diz analista
Natali Hoff, professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse em entrevista à Gazeta do Povo que a ONU vive uma crise de financiamento e de legitimidade.
“São tempos tão complicados para o funcionamento da organização que até a escolha do próximo secretário-geral está difícil de ser consolidada”, afirmou.
Ela pontuou que as críticas à ONU “são legítimas”, já que a organização mantém as mesmas bases institucionais para tomada de decisão desde 1945.
“Uma das dificuldades da Liga das Nações [precursora da ONU e substituída por ela] era a lógica do consenso, na qual todos tinham o mesmo peso dentro do Conselho de Segurança. Portanto, [na ONU] eliminou-se o consenso, mas estabeleceu-se o veto para garantir a participação das grandes potências”, disse Hoff.
“Essa estrutura, por mais que seja útil para permitir a existência da instituição e evitar que os Estados a abandonem ao longo do tempo, acaba congelando o Conselho de Segurança em quase todas as situações nas quais há uma colisão direta de interesses dos atores que possuem o poder de veto”, acrescentou a analista.
Nesse sentido, durante a Guerra Fria, o Conselho de Segurança ficou pouco operacional, já que dois rivais, Estados Unidos e União Soviética, tinham poder de veto.
“Nos anos 1990, tivemos um raro consenso porque os Estados Unidos se tornaram hegemônicos, resultando em um Conselho de Segurança mais operante e na expansão das intervenções internacionais militares, humanitárias e de outras formas de atuação no campo internacional. Nos últimos anos, com as transformações observadas, vemos novamente o Conselho de Segurança sendo congelado”, lembrou Hoff.
Com China e Rússia de um lado e Estados Unidos do outro – membros permanentes do Conselho e com poder de veto, ao lado de Reino Unido e França –, o colegiado não consegue resolver conflitos como as guerras na Ucrânia e no Irã.
Reforma da ONU depende dos seus membros, dizem analistas
Maurício Fronzaglia, professor de relações internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), disse à Gazeta do Povo que a própria forma como a ONU está estruturada dificulta que sejam realizadas reformas.
“A ONU se coloca como uma arena global diplomática para a resolução pacífica e diplomática de conflitos. Nesse sentido, nós podemos dizer que a ONU teve mais fracassos do que sucessos, mas isso se deve também à sua organização interna. A ONU é uma organização de governança global. Governança não é governo. Um governo, quando toma uma decisão, tem meios de impor essas decisões”, afirmou Fronzaglia.
“As Nações Unidas, em muitas das suas resoluções, não têm como executá-las, como colocá-las em prática, porque não são um governo global; ela depende do comprometimento dos seus membros”, acrescentou.
Essa necessidade de consensos e a variedade de áreas que a ONU contempla tornam a estrutura da ONU “mais burocrática e pode se tornar uma estrutura mais lenta por causa disso”, pontuou Fronzaglia.
“Sobre a questão de a ONU ser um instrumento ideológico: ela está no meio de um debate ideológico global, entre aqueles a favor da globalização e de uma maior integração entre os países e aqueles que se dizem contra o globalismo, porque o globalismo seria uma maneira de impor uma cultura multilateral e multicultural para todos os países, fazendo com que esses países percam, nesse processo, a sua identidade nacional. Então, essa é uma disputa de narrativas que está em vigor na ONU, se encontra na ONU, mas também se encontra na grande maioria dos países-membros”, disse o analista.
“Ela foi fundada para dar respostas a um mundo que não existe mais, o mundo de mais de meio século atrás. A estrutura da ONU precisa refletir o que é a geopolítica mundial hoje, o que é a distribuição de poder na geopolítica mundial hoje”, afirmou Fronzaglia.
Conselho da Paz de Trump teve baixa adesão
Essa necessidade de reforma também decorre do fato de que não existe alternativa no horizonte por ora.
Após ter criticado a ONU na Assembleia Geral de 2025, Trump criou o Conselho da Paz, para promover a reconstrução da Faixa de Gaza e mediar outros conflitos pelo mundo, mas a baixa adesão – apenas 27 países, enquanto as Nações Unidas têm 193 Estados-membros e dois observadores, a Santa Sé e a Palestina – e as condições de criação do grupo – no qual Trump é o presidente vitalício, independentemente de exercer mandato eletivo ou não – dificultam que saia do papel.
“Todos esses questionamentos sobre a ONU são justos de serem apontados. A questão é que a crítica de Trump parte de uma postura de destruição: a premissa de que a instituição não funciona, devendo ser extinta e substituída por algo novo. E é óbvio que esse algo novo que ele propõe é semelhante ao Conselho da Paz que ele criou, uma instituição que atende a interesses quase particulares”, disse Natali Hoff.
“A ONU vive esse momento de crise causado por todas essas transformações históricas e por não conseguir acompanhar esse ritmo. Só que a reforma dessa instituição passa pelo interesse dos Estados — apenas eles podem reformá-la, já que não tem a capacidade de se reformar sozinha. Ela precisa que os Estados tomem essas decisões por ela, porque é uma instituição intergovernamental e não está acima dos Estados”, concluiu.


